Ederzito ou a mão esquerda do herói do impossível

 por João Tiago Lima

Eder

«Sabes qual é o nome verdadeiro do Eder?» – perguntou-me o miúdo que, no alto dos seus dez anos, mais uma vez me demolia com o seu saber enciclopédico acerca das coisas mais improváveis do universo futebolístico . Fazia lá eu ideia de como se chamava o longílineo avançado centro que começava a despontar na equipa principal da Briosa. «Chama-se … Ederzito! Não é fantástico?» exclamava ele empunhando triunfalmente os Cadernos da Bola que, por esses dias, devorávamos os dois em busca das novidades de Agosto para a época que aí vinha. «Ederzito?! Realmente é um nome extraordinário! Era muito mais lógico que esse fosse um diminutivo de Eder…» pensei eu, entre o incrédulo e o divertido.

Avançamos duas temporadas para aterrar no verão de 2010. A Académica começa o campeonato de forma excelente, com uma vitória na Luz frente ao campeão Benfica de Jorge Jesus. De férias na Figueira, (tele-)vimos o jogo num café cheio de encarnados. O tão improvável como belo golo de Lionel já depois da hora festejámo-lo exuberantemente – e tenho de o admitir com pouco fair-play –  em pleno território hostil. Eder não fez parte dos convocados por Jorge Costa, nosso treinador, para o primeiro compromisso oficial da época. Não seria assim quando, na sexta-feira seguinte seguinte, rumámos ao Calhabé cheios de fé. A Académica recebia o Olhanense e, em caso de vitória, isolar-se-ia no primeiro lugar da tabela. Jogo difícil, frente a algarvios muitíssimo bem fechados na sua defesa. O golo acabou por aparecer perto do fim, em oportuno cabeceamento do médio Diogo Gomes, numa altura em que Eder já tinha entrado em jogo para aumentar o nosso poder de fogo. A substituição surtira efeito, pelo menos indirectamente. Bastava segurar o resultado e a liderança seria nossa. Já me imaginava a festejar com uma mariscada pela noite fora na  Figueira quando, na sequência de uma bola pontapeada para a nossa área, o árbitro marca penalty para os algarvios. A primeira reacção foi, como sempre, de indignada fúria. «Penalty? Nunca na vida! É um escândalo! Um roubo! Sempre contra nós, estes filhos da puta!» O jogo termina logo a seguir e quando nos dirigimos para o carro passamos por um televisor e o alvo da nossa raiva muda de protagonista. A culpa, afinal, é do … Eder! Embora ligeiramente carregado por um adversário, foi ele quem abriu os braços, naquele estilo desengonçado que ainda hoje é o seu, e o juiz da partida não podia, de facto, fazer outra coisa. Nessa noite nem a sua inexperiência o desculpou.

Eis um resumo desse jogo que acabou mal para o Eder e … para mim!

http://livetv107.net/en/showvideo/33891_academica_olhanense/

O Eder, que chegara aos vinte anos à Académica vindo do Tourizense (descoberto pelo técnico deste clube que era, imaginem, o Drulovic!), tinha começado a jogar no Adémia, clube de bairro dos arredores de Coimbra e já em 2010 era sem dúvida um caso bem sucedido de integração social, depois de um início de vida extremamente difícil. A sua progressão foi notória e, na época seguinte, fez parte de uma das melhores equipas da Académica de sempre e que, já sem o guineense no plantel (em virtude de uma estória cujos contornos nunca cheguei a perceber inteiramente, Eder abandona a Académica a meio do campeonato e assinará depois pelo Braga), conquistará a Taça na memorável final frente ao Sporting. Acompanhei com muito interesse o percurso de Eder no Braga – recordo especialmente o jogão que fez em Old Trafford – e, por isso, não me opus à sua convocatória para a selecção que, de resto, para mim só pecou por tardia. Todos os jogadores da Briosa, do meu ponto de vista, merecem ser convocados. Todos? Bem, quase todos. Alguns dos que nos enviaram para a Segunda este ano ainda nem os posso ver à frente! Claro que nunca exigi a titularidade de Eder no Euro, mas tinha a secreta esperança que ele pudesse vir a ser útil.

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Por isso, na final de domingo passado, exultei quando me dou conta que o substituto do grandíssimo mas esgotado Renato era, não o André Gomes ou o Danilo (como teria sido lógico caso o engenheiro fosse um treinador medroso – o que é, sabemo-lo agora,  falso! –, mas, sim, … o Ederzito! «Vamos finalmente esticar o jogo!» – gritei.  Tal como berrei quando houve um livre contra nós: «Eder! Sai da área! Lembra-te do jogo contra o Olhanense! Não abras os braços!» Ele não me ouviu, mas felizmente só jogou com a mão na bola perto da baliza francesa. O árbitro trocou os olhos e, por sorte, o  tiro do Raphael esbarrou na trave. Imaginem o que diriam os franceses se a hora da glória viesse adiantada uns minutos. Não veio. Chegou logo depois. Um tiro à Eusébio. Magia pura. O drama que nenhum Shakespeare ousaria escrever. E, por fim, após os festejos, a luva que sai de dentro da meia. Uma bofetada branca para os críticos. Para mim, não. Sei do que a mão esquerda de Eder é capaz há muito tempo num campo de futebol. Pelo menos desde aquele fatídico último minuto frente ao Olhanense. Hoje tudo isso nada ou pouco vale. «Somos Campeões da Europa, caralho!» E o golo foi de quem? Eder! Mil vezes obrigado, herói do impossível!

 

 

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Futebol: Um património comum ameaçado

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Adeptos portugueses cantam o hino antes do Portugal-Islândia

 

por David Guimarães

 

Todos os jogadores, mais vincadamente os grandes campeões, odeiam perder. Quando o insucesso acontece, é como um luto de “morte”, embora se fale apenas de uma “perda” desportiva. Sempre que defendem o seu país, a sua identidade nacional, a derrota ganha contornos dramáticos. Nas grandes competições internacionais, joga-se pela pátria, unindo-se um povo aos seus “ 11 embaixadores em campo”. O grande evento futebolístico propicia um elo único entre o “eu” e o “outro”, diluindo-se num “nós”. Cada jogo opõe duas equipas, “nós” contra “eles”. Os seleccionados são movidos pela inspiração e desejos dos seus milhões de concidadãos na procura de um final glorioso. De um vasto universo emerge um pequeno número de eleitos, “os melhores”, os “heróis”, que defendem a sua gente. Cada toque na bola é de uma responsabilidade tremenda, pois extravasa o espaço físico do estádio. Os atletas “enviados” e “ungidos” pelo povo espelham o país, são modelos, ídolos de juventude. Só uma grande conquista faz jus à história e cultura de uma nação, que é sempre tida como grandiosa e pujante. Assim se faz “existir” um país e se perpetua a sua identidade ancestral para um futuro inevitavelmente brilhante.

O futebol é uma realidade social propensa a uma imagética de guerra, coadjuvada por uma linguagem de terminologia belicista. Como em zonas de confronto é preciso “fazer qualquer tipo de sacrifício pelos colegas”, “morrer em campo”, “batalhar sem rendição”. O hino nacional, canção “combustível”, é entoado antes de cada duelo. O choro é muitas vezes inevitável nos jogadores, quando irmanados com  milhares de adeptos a cantar a plenos pulmões. Esta encenação permite uma vibração que transcende o indivíduo. Sente-se, num arrepio, o pulsar da Nação.

Começa a prova. Somos “nós” contra “eles”, numa batalha colectiva onde “esmagam” ou são “esmagados”, uma guerra onde “matam” ou são “mortos”. Não importando quão grande ou forte é o adversário, “lutarão” até à exaustão para o vencer.

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A comunhão entre os indómitos islandeses e os seus adeptos. Durante o Euro 2016 não há de certeza  filas de trânsito  em Rekjavick pois a cidade deve estar deserta.

Este ano, os olhos e os corações do mundo do futebol estarão voltados para França, o foco será o Europeu, um período de grande festa internacional da modalidade. Deseja-se um tempo de celebração da competição leal e da convivência pacífica entre os povos. É uma oportunidade de revigorarmos os ideais humanistas de Pierre de Coubertin. Valores de paz e tolerância, de inclusão, de aceitação da diversidade. Pretende-se um evento que despreze todas as formas de preconceito e contribua para um saudável entendimento entre os seres humanos. Como é que conseguirá, então, o humanismo imperar através desta batalha de nações? Terá o desporto-rei esse poder?

O futebol tem servido de palco para actos agressivos que nada têm a ver com o espírito desportivo. Mas também não vou afinar pelo diapasão benévolo de que toda e qualquer actividade competitiva deve ser um “jogo para famílias”, espectáculo aprazível e imune a qualquer tipo de conflitos. Em determinados enquadramentos, a competição organizada pode aproximar-se desta visão idílica, onde a tensão está ausente. Mas é também inegável que enquadra no seu seio discordâncias imemoriais de vária ordem, laborais, políticas, económicas, sociais, religiosas, nacionais, regionais, separatistas, em suma, este fenómeno pode ser considerado como um aglutinador da pluralidade de representações da vivência humana. Não excluindo este lado de confrontação, temos de perceber que o limite é a violência física. Sem entrar num espaço de sensibilidades individuais, posso considerar (alargando a tolerância) as trocas de insultos, picardias e as tentativas de humilhação verbal entre adeptos, aceitáveis como normais e circunscritas aos seus trâmites. Seria irrealista escamotear que muitas das pessoas apaixonadas pelas várias modalidades sentem ódio, ou ódios exacerbados, por jogadores, instituições e dirigentes rivais. No entanto, essa repulsa por alguns antagonistas e a resolução dos contenciosos tem de ser delegada para os jogadores e treinadores, a verdadeira “batalha” é limitada pelas “quatro linhas”. No fundo, trata-se de circunscrever a violência para dentro do jogo (metamorfoseada em abnegação, empenho e motivação aguerrida). Esta é, aliás, uma marca indelével dos estados civilizados, onde o “monopólio da violência” é delegado e gerido pelo estado soberano. Estes são, necessariamente, os limites deste desporto, que nunca deverá resvalar para a confrontação física extra jogo. Nesses casos já entramos no campo do subterfúgio, onde a modalidade se transforma numa mentirosa razão para pulsões que moralmente não têm lugar na comunidade civilizada.

O futebol, como manifestação paradigmática do modo de vida ocidental, é alvo cada vez mais apetecível do terrorismo (como provam os atentados bombistas nas imediações do Stade de France). Esta acção concertada, juntamente com outras zonas de matança, assombrou de novo as ruas de Paris, depois da ofensiva perpetrada contra o jornal satírico francês Charlie Hebdo e seus cartunistas. Os verdugos do Estado Islâmico ameaçaram mesmo atacar o Europeu e todas as medidas de segurança não serão demais, esperando-se que até ao final da competição nenhuma destas ameaças se concretize..

Para estes fanáticos, mais do que sacrificial, a própria morte (ceifando outras vivas) é a estrada para a suprema dignidade (a entrada no paraíso como mártir). Este pressuposto nasce de uma concepção que, apesar de mascarada como a vontade divina, não é mais do que uma sobreposição do Homem a Deus. Este hediondo terrorismo fundamentalista é a negação da perfeição divina, pois são os próprios carrascos que “encarnam” o seu criador, que deveria ser inacessível e não reproduzível, mas que se corporiza, através de uma representação terrena e abjecta da sua suposta vontade.

O ataque ao jornal satírico veio proporcionar uma acesa discussão sobre liberdade de expressão (sua importância, limites e potencial efeito contraproducente) para a almejada laicidade europeia. Julgo que devemos categorizar a liberdade de nos exprimirmos como uma “dádiva” bondosa e uma vontade indómita a que estamos eternamente “condenados”. É imperativo definir a possibilidade de expressão livre como um “bem”, uma predisposição para adquirirmos competências enquanto seres sociáveis que somos. No entanto, é errado quando a liberdade de expressão nos leva a uma mundividência que estabelece uma “virtude” única e esconjuradora do pluralismo e eclectismo das “virtudes”.Seguindo este raciocínio a sátira mordaz dos cartunistas deve ser louvada, porque não nos direcciona para um “bem” reducionista, mas sim para o reconhecimento da diversidade de pensamento, pois tudo é humoristicamente criticado e posto em causa.

Pensando num universo limitado a vinte e dois jogadores em campo, jogando onze elementos de cada lado, surge a percepção do desgaste do axioma: “a minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro”, substituído com propriedade por: “a nossa liberdade nasce quando se inicia a liberdade do outro”. A liberdade não se auto sustenta nem se hétero limita, mas necessita de terceiros para se consumar. Tal como a corrida de um craque fantasista, o cidadão em estado laico tem de estar inserido numa dinâmica colectiva, ou seja, bem integrado nos vários “modelos tácticos existentes”, nunca para aprisionar, mas sim para integrar convenientemente o movimento. Nesta lógica, é importante não atribuirmos superioridade a determinado estilo. Uma equipa que pratique um jogo com predominância na posse de bola é usualmente catalogada como sendo superior a outra que empreenda uma arrumação táctica defensiva, procurando uma contra-estratégia que condicione o adversário. Portanto, não deve existir somente uma “moral” certa, mas sim várias fórmulas estilisticamente legítimas de viver (em campo e fora dele). No entanto, não deveremos cair no extremo da idolatrização da diferença, tão grata às nossas sociedades laicas, caídas muitas vezes na desgraça do relativismo absoluto. Na vida, como no futebol, devemos procurar o poder complementar do único, sem lhe retirar identidade, mas antes, colocando-o em diálogo.

Uma equipa não será uma civilização com sociedades, mas sim uma sociedade com indivíduos de proveniências multiculturais, num circuito global de interligações que estabeleça um equilíbrio e uma harmonia. Não quero com este raciocínio negar a existência de génios criativos, que são claramente mais dotados e capazes do que os seus pares, tendo, por isso, um destaque maior dentro da colectividade. Mesmo monopolizando atenções, a estrela de uma equipa não deve ser imbuída pela egomania (como um fundamentalista), sonegando ao companheiro a possibilidade de existir. Para além do criticismo aos colegas, o atleta terá de se colocar em causa, é imperativo que tenha consciência que não é imune à falha e que se encontra muito perto do “pecado” e muito longe de “Deus”. Como os cartunistas, os jogadores devem evitar a idolatria e a sacralização (de si próprios ou dos companheiros). Ser livres em equipa, rir uns para os outros e para o jogo, fazendo rir quem o vê. Nem Messi ou Ronaldo podem viver isolados. Devemos, todos, procurar coabitar com o outro, nosso “irmão”. Apenas Deus, “lá no alto”, vive sozinho.

Como se pode, então, combater este fanatismo religioso trans-étnico e o seu potencial ideológico agregador? Com um fenómeno trans-étnico mais poderoso, o futebol. Mais concretamente, na sua vertente organizada (com as suas regras e os seus códigos éticos e de conduta).

Nada estimula de forma tão salutar os instintos mais primitivos do ser humano nem desperta tão plenamente a sua essência enquanto indivíduo. O primitivismo não é degolar (para isso necessitamos de um enfoque racional malévolo), mas sim a propensão para acções tão simples como correr, saltar ou acertar numa bola. A prática desportiva nasce de necessidades fundamentais que todos sentimos: conviver, criar laços, competir, acarinhar uma identidade comum. Não são “francesas” nem “iraquianas”, gera-se uma união em torno do jogo. Apesar do seu belicismo tão vincado e directo (através do discurso ou acção), o verdadeiro espírito desportivo suaviza e dimensiona equilibradamente as diferenças e os antagonismos que lhe são inerentes. Revelando o melhor dos sentimentos e da natureza humana, permite ultrapassar barreiras de “raça”, de religião, de nacionalidade. As manifestações desportivas são semelhantes às actividades lúdicas da criança que um dia todos fomos. O prazer de movimentar o corpo dá-nos uma consciência de liberdade só experimentada através da mais simples e pura expressão do desporto. Todos os mamíferos brincam, mas só a nossa espécie conta os pontos.

 

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No Europeu dos adeptos mais simpáticos e originais, o título vai para a ilha mais pequena do Reino Unido!

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Do jogo enquanto medo de perder

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                                                                                                         por João Nuno Coelho

 

Com a final da Liga dos Campeões à porta, um novo duelo entre o aristocrático Real Madrid e o guerreiro vizinho Atlético, volta à ordem do dia o debate suscitado pela apaixonante eliminatória da meia-final At. Madrid-Bayern  .O eterno debate “futebol ofensivo vs futebol defensivo” ou “jogar bem vs jogar mal”, ou ” jogo bonito vs jogo feio”.

Admito que em quase todos os jogos internacionais que não envolvem a minha equipa, dou por mim, involuntariamente, a torcer pela equipa que joga o futebol mais ofensivo, que envolva mais risco, que passe por impôr o dominio do jogo, assumi-lo, criar mais situações para marcar. Neste caso o Bayern. Foi sempre assim, é algo que não consigo controlar.

Portanto mesmo que admire muito a actual equipa do Atlético e o espírito guerreiro criado pelo Simeone, como adepto gosto mesmo é de equipas de ataque, de posse e circulação de bola, de risco assumido.

Mas, no futebol, como noutras actividades e vertentes da vida,  para mim não há nada pior do que o pensamento único, a forma “correcta” de fazer as coisas. Respeitar o jogo é respeitar as diferentes formas de jogar, a multiplicidade de meios, de caminhos e de estilos – e o seu confronto – para atingir o fim pretendido. Desde que respeitando as regras e a cultura desportiva. Porque antes de ser um espectáculo (onde o “joga bonito” é “a” maneira correcta de fazer as coisas) o futebol é um jogo, ou, se preferirmos, um desporto.

Quando os recursos disponíveis para duas equipas são muito díspares torna-se ainda menos razoável criticar quem joga de forma mais prática, mais estratégica, fazendo apelo a outras qualidades e armas que não as que proporcionam um melhor espectáculo.

No caso deste Atlético-Bayern (como no Benfica-Bayern, da eliminatória anterior, em que os encarnados também jogaram as duas mãos na “retranca”…) podemos ter quase a certeza que se os adversários dos alemães tivessem jogado olhos nos olhos teriam sido facilmente batidos.

Tudo isto perece-me inegável, mas não esgota o assunto. No caso do Atlético de Madrid, a contenção é mais do que uma estratégia, trata-se de uma filosofia de jogo – a do seu treinador. Duvido que, mesmo que quisesse, Simeone saiba jogar de outra forma, que possa colocar as suas equipas a praticar outro tipo de futebol (também por isso tem tantas dificuldades em ganhar aos “pequenos”).

Algo que se passa também cada vez mais com José Mourinho, que na sua carreira tem vindo a preferir o tal futebol de contenção, especulativo, apenas centrado no resultado. Mesmo quando não se pode queixar minimamente dos recursos à sua disposição.

Simeone como Mourinho têm claramente filosofias de jogo filhas do medo de perder. Para ganhar seguem um atalho: a fuga à derrota. Já Guardiola  mantém sempre a sua equipa na mesma estrada: jogar bem, considerando que quem o faz está mais perto de ganhar. Nenhuma das filosofias é intrinsecamente boa ou má, melhor ou pior. São diferentes, são dois caminhos para chegar ao mesmo objectivo: a vitória.

Mas se me perguntarem qual prefiro não tenho qualquer dúvida. Existindo uma certa paridade de recursos disponíveis, prefiro a de Guardiola. Em primeiro lugar, porque é mais espectacular, esteticamente mais apelativa. Em segundo lugar, e se calhar mais importante, porque reflecte e manifesta um atitude, uma postura, uma filosofia perante o jogo e a vida que me atrai muito mais, que me parece multo mais saudável e positiva: a de relativo desprendimento em relação ao sucesso e ao insucesso, quantas vezes uma oposição perene e fátua.

Só quem não tem ansiedade perante a derrota, perante o insucesso, só quem não tem medo de perder, de enfrentar e infelicidade que o desaire implica, joga como jogam as equipas de Guardiola. Encarando o risco com naturalidade, sabendo multo bem que ele faz parte do jogo, que a vitória e a derrota são duas faces da mesma moeda. Porque para Guardiola, alguém que, atenção!, é imensamente competitivo, a vitória e a derrota são menos importantes do que o jogo em si. E, logo, a derrota torna-se mais aceitável, mais suportável, mais digna, se jogarmos bem. Como aconteceu à Holanda de Cruyff no Mundial de 1974 ou ao Brasil de Telé Santana no Mundial de 1982 ou como já aconteceu diversas vezes a equipas de Guardiola, incluindo nesta meia-final da Champions.

Guardiola e o seu “pai espiritual” Cruyff expressam também assim o seu amor pelo jogo, assumindo-o como o valor mais alto. Já Simeone e Moutinho, amam multo o jogo, com certeza, mas são dominados pelo medo da derrota. Porque mais que o futebol amam o sucesso, ganhar, serem os primeiros.

Como disse antes, para mim nenhuma destas posições, per si, é melhor ou pior. Sei muito bem, no entanto, com a qual me identifico, a que mais aprecio. Qual a que penso corresponder a uma compreensão do jogo, do desporto,  mais profunda e completa.

Por isso, sempre que não houver elementos “emocionais” em jogo, irei continuar a preferir que ganhe quem menos medo tem de perder.

 

 

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Manifesto Futebológico

por David Guimarães

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Foto de Thierry Des Fontaines

  1. O futebol deve ser visto como algo instigante e germinador de um pensamento ponderado. Para isso, é necessário erradicar a noção de pequenez e boçalidade com que despudoradamente é tratado por muitos dos seus agentes. Esconjurando o efeito anestésico de distracção social, a emergência “tumultuosa” da reflexão surgirá, guiando-nos por um caminho consonante com a importância concreta e simbólica do desporto rei.
  2. Alicerçando-me no pensamento de Platão, afirmo que o “logos” futebolístico exige um equilíbrio constante entre o sensível e o inteligível, onde é indispensável uma convivência paixão/razão. Muitos comentadores da modalidade (de forma nefasta para o debate) antagonizam estes dois universos, fazendo emergir assim dois tipos de postura: seres clubistas trauliteiros e os que se mantêm numa confortável neutralidade. Uns destilam imponderação emocional, outros refugiam-se no embalo do politicamente correcto. Neste ponto é essencial uma terceira via, o surgimento dos harmoniosos não-alinhados e livres (que na comunicação futebolística estão ainda manietados). Replicando o que se pretende na acção do relvado, também os discursos sobre o jogo têm de integrar equivalentemente o amor à causa e racionalidade.
  3. Pensar o futebol segundo este enquadramento exige (para posterior diálogo) não apenas uma forma de expressão, o erigir de um estilo ou a adopção de uma estética caracterizadora. Intima algo para além disso, uma predisposição transfronteiriça. Reflectindo o “belo”, o futebol é justamente a “arte oitava”. Mas, ao contrário das sete que o antecedem, não o é de forma consciente. Sem dúvida contemplando, o futebol supera o fervor artístico. Enfim… alcançamos o conceito “jogo”, esse rio que transborda e humedece as margens.
  4. Nesse jogo temos a síntese da vida em movimento. O mundo num rectângulo relvado cujo coração é uma esfera pontapeada. Mesmo assim, o seu carácter ecléctico não impede uma gíria específica e rica que tem de ser respeitada e aplicada. Apenas é possível compreender o universo “dentro das quatro linhas” quando a terminologia técnico/táctica da modalidade é correctamente apreendida e utilizada. A “linguagem científica futebolística” necessita de tomar o lugar do não rigoroso e despropositado “jargão futebolês”. Como tal, determinados conceitos inerentes aos intervenientes terão de ser obrigatoriamente veiculados com rigor através dos meios de comunicação. Noções como “estrutura”, “sistema”, “modelo” (entre inúmeras outras) têm significância distinta e nunca deverão ser arbitrariamente aplicadas.
  5. Esse “cosmos” particular é necessário, mas não suficiente, para uma visão global do nosso “Planeta do Futebol”. Essa cientificidade deontológica é exígua para a pretensão robusta que a transdisciplinaridade proporciona. A aproximação, interacção e suplantação de distintas áreas do conhecimento é impreterível para que nasça e subsista a almejada Futebologia. A História, a Filosofia a Sociologia, a Antropologia serão fontes de auxílio, diferentes prismas que enriquecem e clarificam a percepção do desporto rei.
  6. Para não emergirem dúvidas, a pretensão não deverá ser nunca replicar um academismo de “vacas sagradas”, linguisticamente hermético e divinizador para com os seus “incontornáveis”. É necessário, sim, incorporar o nobre sentido de “estudo”, repercutindo a necessidade de problematização, aprofundamento e rigor em torno do fenómeno. Esta concepção e postura terá de desaguar numa comunicação (oral/escrita) rica e cuidada. Para respeitar e instigar os seus amantes à reflexão, urge estilhaçar o facilitismo minimalista, irreflectido, grosseiro e desprezível que enforma a multiplicidade dos discursos futebolísticos.

futebologia7. Este “Pensador de Rodin” está numa confortável indagação (inquietantemente estático) sobre a “bola de jogo”. É a representação perfeita do “Homo futebologicus”. Um ser que se equilibra, sustém e subsiste numa superfície de difícil domínio e estabilidade. Está em contacto com o seu mundo, mas olha em diante para a infinidade de possibilidades. Sente para entender e entende para sentir.

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Foto de Thierry Des Fontaines

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As Memórias do Futebol

Alcino Pedrosa

“Vivo e respiro o futebol. Para mim, o futebol não é apenas um desporto, é um ideal e um modo de evocar a vida”.

Osvaldo Soriano, jornalista argentino (entrevistaao Canal 7, em 1990)

NickHornby, autor de “FeverPitch”, partindo do princípio que a sociedade “se reproduz a si mesmo em qualquer domínio social”, sustenta que o futebol é susceptível de “marcar a própria vida”. A ideia do jogo como referente da vida, defendida pelo autor inglês, devo confessar, agrada-me sobejamente, pela relação que o futebol tem com alguns momentos da minha existência. Acontecimentos, personagens e estórias do universo futebolístico assumem, nas minhas memórias, a função de signos, que remetem para algo que extrapola o âmbito estritamente desportivo e que, pela sua carga semântica, conferem a vários momentos da minha vida um conjunto de sentidos que de outra forma dificilmente poderiam existir.

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O futebol, metáfora da vida

Os mais cépticos (por alguma razão o são) questionarão sobre o significado das coincidências entre o futebol e a vida, porão em causa a sua utilidade ou muito simplesmente perguntarão “O que tenho eu a ver com isso? Eu até nem gosto de futebol”. Podemos viver desprezando o futebol, é certo, podemos simplesmente ser indiferentes ao desporto-rei, mas no limiar do abstraccionismo, surgem sempre novas interrogações, que evidenciam o papel que esta modalidade desempenha na nossa existência. Quem nunca se questionou, mesmo como simples exercício reflexivo, sobre as razões que levaram a que rapidamente o futebol se tornasse no desporto mais popular do planeta? Quem ousa negar o seu carácter envolvente, catalisador de ódios e paixões?

“O futebol – afirmou, um dia, Osvaldo Soriano (1990) – é uma parte da minha vida. Muitas das minhas memórias estão-lhe associadas, como a instalação da luz na aldeia de meu tio, em 1958, no dia da abertura do campeonato do mundo, ou a primeira paixão, na cancha do San Lorenzo, em 1960.”

Compreendo bem as palavras de Soriano. Acreditem ou não, nos primeiros dias da minha existência, já sentia de perto as vibrações do futebol. Questão de ADN, sem dúvida, mas, também, o resultado de um conjunto de circunstâncias que muitos imputam ao destino, outros, a uma série de coincidências, outros, ainda, a algumas das infinitas possibilidades da física quântica. Os meus pais conheceram-se na Juventude Operária Católica, no regresso de um jogo que opôs a selecção do Porto à selecção de Lisboa. Nasci na Rua Gomes Leal, a quinhentos metros do Estádio das Antas.Fui baptizado a 22 de Março, na Igreja do Bonfim, à mesma hora que o Futebol Clube do Porto se sagrava campeão nacional, depois de vencer, de modo sofrido, o Torreense por três a zero. Nesse dia, não existiu crença ou prática religiosa, que resistisse à fé e à angústia dos adeptos presentes na igreja, a começar pelo padre Júlio, que decidiu interromper a cerimónia para que, num velho Nordmende Tannhäuser-Stereo instalado na sacristia, se ouvisse o final do Benfica – CUF, que parecia não querer terminar.

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Rua Gomes Leal, onde nasceu o escriba destas linhas

Não sei qual a razão, mas algo muito forte, que faz parte da minha memória futebolística, emerge à tona quando me lembro de algumas datas significativas da minha vida. E a evocação pode não ter a ver com o meu clube de coração. Conclui a escola primária, em 1969, sem grandes recordações, mas sou capaz de recuperar, com detalhe, os dois golos que Cruyff marcou ao Benfica, em 19 de Fevereiro deste ano. Licenciei-me e entrei no mundo do trabalho, em 1982, mas quando trago à colação essa data, o que me vem primeiro à memória é o cidadão Joaquim Lucas Duro de Jesus, registado na história do futebol português como Quinito, a entrar, no dia 29 de Maio, no Jamor de smoking branco e laço preto para comandar o seu sedutor Sporting de Braga, na final da taça de Portugal. O Sporting Clube de Portugal ganhou por quatro a zero, mas nunca ninguém terá homenageado de forma tão bonita a prova rainha do futebol luso como Quinito, o mais romântico dos treinadores portugueses.

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Quinito, de fraque branco e laço a condizer

Perguntava-me, há dias, um amigo se nas linhas das minhas memórias não há lugar para momentos de desilusão. Certamente que há, até porque parte delas foram escritas ao longo de uma travessia do deserto, que durou 19 anos e só terminou em 1977. O mês de Setembro deste ano, de resto, é assinalado por dois factos marcantes: a minha entrada na Faculdade e a segunda jornada do campeonato nacional de futebol. No dia 10, o Porto jogou na Amoreira contra o Estoril. Assisti ao jogo, que terminou com a vitória dos canarinhos por dois a zero. Na memória, fixadas de modo indelével, ficaram as palavras de Pedroto, proferidas, no final do jogo, a escassos 5 metros do sítio onde me encontrava: “Não voltaremos a perder um jogo assim”. E se bem afirmou a ideia, melhor a concretizou, pois aquela viria a ser a única derrota sofrida pela equipa em todo o campeonato.Três dias depois, na Alemanha, a equipa empatava dois a dois com o Colónia, na 1ª eliminatória da Taça das Taças. Começava a forjar-se, naquele momento, o F.C.Porto europeu, que teria a sua consagração, primeiro em Viena, em 1987, com a vitória na Taça dos Campeões Europeus e, posteriormente, a 13 de Janeiro de 1988, no estádio das Antas, com a conquista da Supertaça europeia. Ah……já me esquecia de referir. Neste dia, apresentei a minha dissertação de mestrado.

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Os festejos da vitória (Antas, 13 de Janeiro de 1988)

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O esfericocentrismo de Johan Cruyff

por David Guimarães*

 

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foto retirada da página facebook do jornal de Volkskrant

O inigualável mestre holandês (desaparecido ontem) é responsável pela implantação e transposição para o terreno de jogo da maior e mais importante revolução do futebol moderno, o famoso “futebol total”, ou, na denominação do seu inventor, o treinador holandês Rinus Michels… “futebol circular”. Nunca houve ninguém tão completo, versátil e ecléctico no fenómeno futebolístico como Cruyff, o verdadeiro ser “transdisciplinar” do jogo. Nas suas palavras: “Sou um ex-jogador, ex-dirigente, ex-treinador, ex-presidente honorário. Uma lista porreira que, mais uma vez, mostra que tudo chega a um fim.”.
Esta filosofia aprimorou as noções de jogo posicional, movimentação, desequilíbrios e pressão (em posse e na recuperação). As dinâmicas colectivas eram interligadas com noções individualizantes, num incremento de velocidade no momento de recepção e passe, ou na marcação/desmarcação. No Ajax onde se sagrou três vezes campeão europeu (1971 a 1973) e na selecção holandesa de 1974 (a celebérrima “laranja mecânica”) quando atingiu a final do Mundial da Alemanha, Cruyff foi a placa giratória deste estilo inédito, impulsionador de um dinamismo ritmado e solidificado em insistentes trocas posicionais desestabilizadoras. Este jogador era o garante de uma quantidade enorme de posse de bola, associando-lhe qualidade, critério e destino adequado. Monitorizava a perfeita relação entre a equipa e o esférico.
No jogo decisivo do Campeonato do Mundo na Alemanha Ocidental em 1974, onde a sua selecção foi derrotada por duas bolas a uma, o golo marcado pelos “cor-de-laranja” procede de uma das melhores jogadas de envolvimento de todos os tempos. No primeiro lance do desafio, logo após o pontapé de saída, os forasteiros trocam 16 passes, obrigando os adversários a baixarem o bloco, acantonando-se junto da sua área.  Com todos os jogadores de campo holandeses no miolo de terreno adversário, circulando a toda a largura e em constantes trocas posicionais, Cruyff (aos 46 segundos) recua e pede a bola. Ao 16º passe é o último homem da sua equipa… mas mesmo assim, arranca em direcção à baliza, ludibria três marcadores e sofre penalty, posteriormente convertido por Neeskens. Este golo não foi suficiente para levantar o troféu, visto que a Alemanha Ocidental conseguiu virar o resultado (2-1).
A sua filosofia marcou indelevelmente o jogo, sendo a “mater” geradora de outras concepções de futebol apoiado. Cruyff, que posteriormente brilhou no Barcelona (onde germinou a semente do Tiki Taka actual), levou consigo o conceito de controlo e circulação, que ainda hoje é imagem de marca dos “blaugrana” (preferia ser derrotado e jogar um futebol autoral que ficasse na história, do que vencer actuando monotonamente sem espectáculo).
Sendo o jogador mais elegante que existiu, conduzia senhorialmente a bola como que deslizando graciosa e imaculadamente sobre uma passadeira vermelha hollywoodesca. A jogada de golo supracitada desse Mundial perdido é exemplo da sua magnanimidade. Os colegas abriam alas ao futebolista Vitruviano e ao seu manifesto esfericocêntrico, onde a proporção é gizada pelo rolar harmonioso de uma bola.
* David Guimarães estudou História na Universidade do Porto. Lê, pensa e escreve sobre futebol, ultimamente também  no jornal Público. Grande amigo e seguidor atento de Leitura de Jogo, este é o seu primeiro (de muitos, espera-se) texto no blog. Tal como Cruyff na equipa principal do Ajax, David estreia-se neste team com um golo de bandeira.
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A PAIXÂO DO ADEPTO [EU PORTISTA ME CONFESSO]

por Alcino Pedrosa

 

Diz-se que o futebol é paixão. Paixão pelo jogo, por uma equipa, pela cor de uma camisola, por um emblema ou por uma região. Para mim, é muito mais do que isso: é uma grande viagem. Uma viagem pela memória, onde revisito momentos verdadeiramente inesquecíveis, como os que caracterizaram a gesta de 2004, que culminou na final de Gelsenkirchen, onde o F. C. do Porto se sagrou campeão europeu. Ou a primeira camisola azul e branca que recebi, tinha eu quatro anos e mal conhecia os nomes dos clubes e jogadores de então.

gelsenkirchen

Bilhetes da final da Champions League de 2004 (FC Porto vs AS Monaco)

Quando penso no futebol, viajo no tempo e através de uma pluralidade de sentimentos e emoções. Porque um jogo pode representar o melhor, mas também, o pior. Recordo a penúltima jornada do campeonato de 2012-2013. A felicidade estava estampada no rosto dos adeptos benfiquistas presentes no estádio do Dragão. Poucos eram os que imaginavam que ao minuto 92 essa felicidade passaria a tristeza, por força da certeza de passe e da inspiração de dois jogadores, heróis improváveis de uma jornada que parecia ter já o destino traçado. Esta é, talvez, a primeira grande verdade do futebol: um jogo pode ter duas faces totalmente distintas, o céu e o inferno, chamemos-lhe assim, em 90 minutos.

 

kelvin

No futebol tudo pode mudar num momento apenas: Kelvin ou o pontapé decisivo de um herói improvável

Com a mesma serenidade com que aprendi a viver com as recordações da infância, aprendi a viver com as alegrias que o meu clube de coração me proporcionou. Não me dá essa paixão para os arrebatamentos de espírito que fazem os grandes conquistadores ou as figuras de referência. Umas vezes é contida nos interstícios da alma, outras projecta-se nas explosões momentâneas com que festejo uma vitória decisiva ou um golo genial. A minha paixão clubista é leal, civilizada e contemporizadora. Amo o jogo, a técnica, a emoção na bancada, o ambiente que antecede a partida, as piadas e ditos jocosos proferidos, em jeito de troca de galhardetes, entre os adeptos, Mas, sobretudo, amo o clube. Apercebi-me aos 20 anos que esta paixão seria eterna, quando, nos reservados da Biblioteca Nacional de Lisboa, me deparei com um pequeno texto, escrito por Joaquim Vidal Pinheiro, capitão da equipa do Futebol Clube do Porto, morto na batalha de La Lys, em 1918. O texto, intitulado “O amor ao clube”, é uma reflexão sobre a “paixão clubística”, onde o tenente Vidal Pinheiro explana as quatro qualidades que, a seu ver, são indispensáveis a qualquer adepto: amar o clube, viver o clube, não calar as suas opiniões e não desrespeitar o adversário. Escreve ele: “O verdadeiro adepto não menoriza os rivais. Tem de se preocupar apenas com seu clube. A história e o passado dos outros só valorizam as nossas vitórias, porque assim percebemos as dificuldades que atravessamos e por esta forma reforçam a nossa identificação com aquele que amamos”.[1]

vidal pinheiro

Vidal Pinheiro

As palavras de Vidal Pinheiro parecem, hoje, descabidas, sobretudo se pensarmos que muitos dos que assumem a condição de adepto parecem mais empenhados em odiar os rivais do que perceber por que são deste ou daquele clube. Expressões do tipo, “sou do Porto e odeio lampiões” ou “sou do Benfica e não posso com lagartos e andrades” não compaginam com a minha maneira de ser adepto. Apoiar um clube e querer que esse clube ganhe aos adversários é uma coisa, desrespeitar os adeptos rivais é outra. Bem pior, a meu ver, sublinhe-se. Ser adepto do Futebol Clube do Porto, é muito mais do que esta linearidade. É conhecer a sua história e o significado das suas vitórias. Mas é, também, ser adepto do futebol e maravilhar-se com o ambiente caloroso do La Bombonera em dia de jogo entre o Boca Juniores e o River Plate e ficar arrepiado com os adeptos do Liverpool ao cantarem em uníssono o tema “ You’ll Never Walk Alone”. É admirar cada conquista do clube e falar do jogo que se passa dentro das quatro linhas, passando ao lado das polémicas que pairam nos bastidores. É gritar golo quando a bola entra e gritar quando a bola não entra, mas esteve quase a entrar. É reconhecer mérito ao adversário no momento da derrota e festejar, com alegria incontida, na hora da vitória. É, como dizia Vidal Pinheiro, “ser urbano e educado, não dar de barato a nossa paixão, nem conceder facilidades aos adversários; só assim poderemos dar valor às nossas vitórias”[2].

[1] Pinheiro, Joaquim Vidal, O amor ao clube, p. 2, Porto 1914.

[2] Idem, ibidem, p. 3.

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O Sporting e a perda da hegemonia no futebol português

 

por António Alfarrobinha

SCP 1953-54

Sporting tetracampeão (1954): uma imagem que não se repetiu

Em meados do século passado, o Sporting não conseguiu realizar com eficácia a transição do semiprofissionalismo para o profissionalismo no futebol, sendo ultrapassado pelo Benfica que possuía nessa altura uma equipa muito forte, reforçada por Eusébio em 1961, e que às vitórias internas aliou o sucesso na Taça dos Clubes Campeões Europeus em 1961 e 1962. Na realidade, foi na segunda metade da década de 1950 e na primeira de 1960 que o Benfica retirou ao clube de Alvalade a hegemonia no futebol português que, entre outros, os presidentes leoninos Oliveira Duarte e Ribeiro Ferreira conceberam e executaram.

Em Dezembro de 1961 o jornal Sporting, nº 568, publicou um extenso artigo de Couto e Santos, redactor do Mundo Desportivo, com o sugestivo título “Um Sporting campeão faz falta ao futebol português”. É o primeiro artigo de fundo sobre esta problemática de que conheço referência na imprensa desportiva. Compreende-se a surpresa de Couto e Santos, pois entre as épocas de 1940-41 e 1953-54 os leões conquistaram por nove vezes o Campeonato Nacional e cinco a Taça de Portugal. Depois, até 1961, houve apenas o título de campeão em 1958.

Era ainda muito jovem quando o Sporting conquistou o Campeonato Nacional em 1966, mas recordo-me perfeitamente da intensidade emocional com que esse título foi festejado pelos sportinguistas. Nesse tempo estava bem presente a memória do período mítico dos “cinco violinos” e muitos tinham-nos visto jogar. O presidente Brás Medeiros (1965-1973), pessoa de invulgar capacidade de liderança e de grande bagagem intelectual, percebeu com nitidez o que se passava e os mecanismos que explicavam a recente supremacia do Benfica. Agiu no sentido de alterar a situação, mas não conseguiu impedir o que já estava a acontecer e acabou por sair pela porta pequena em Abril de 1973.

Considero que a forma como o Sporting perdeu hegemonia no futebol português para o Benfica decorre de um conjunto de factores que se interligam e se condicionam. Desses factores, destaco três que considero determinantes: a incompreensão leonina da especificidade social e cultural do futebol profissional, as sucessivas crises financeiras no Sporting a partir da década de 1920 e o “efeito” Otto Glória no Benfica (1954-59).

– A incompreensão leonina da especificidade social e cultural do futebol profissional

Estádio José Alvalade 1956

Estádio olímpico de Alvalade (1956)

Para compreender o contexto em que o Sporting perdeu a hegemonia do futebol nacional a favor do Benfica tem interesse verificar quem foi eleito para dirigir o clube de Alvalade, na transição da década de 20 para a de 30 e nas seguintes. Depois de uma geração de directores em que muitos foram atletas (Mário Pistacchini, Soares Júnior, Júlio de Araújo, Sanches Navarro e Salazar Carreira), surgiu no clube um novo tipo de dirigentes oriundos da administração pública, ou que a ela tinham fortes ligações sociais e profissionais, ou que provinham do sector industrial, das forças militares e do próprio regime político (Salazar Carreira, Oliveira Duarte, Ribeiro Ferreira, Góis Mota, Cazal Ribeiro e Viana Rebelo, entre outros).

O Sporting dos anos 1940 e 1950 foi herdeiro de uma filosofia desportiva herdada do pensamento de Salazar Carreira, muito bem expresso em “Os 10 mandamentos do Sporting” (1) e no “Estatuto do Jogador do Sporting” (2), onde se encarava como uma honra e motivo de orgulho vestir a camisola leonina. Salazar Carreira, um atleta invulgarmente eclético, não encarava o futebol e os seus praticantes numa perspectiva moderna e capitalista, revendo-se numa concepção olímpica e formativa do desporto, enquanto que no Benfica já se considerava como uma profissão com características próprias. Tem interesse realçar que, naquele tempo, a profissão de “jogador de futebol” formalmente ainda não existia. Também se deve sublinhar que essa concepção olímpica não foi aplicada aos treinadores do Sporting, principalmente os estrangeiros, que eram muito bem remunerados.

Este elemento conceptual relativo ao “jogador de futebol”, impregnou a superestrutura ideológica do clube e determinou a sua dimensão organizacional e funcional, em particular as relações de poder. Por exemplo, condicionou fortemente a forma como as direcções leoninas reagiram perante reivindicações materiais feitas pelos seus atletas a título colectivo ou individual. A incompreensão das pretensões de Peyroteo na festa de despedida e de Carlos Gomes de melhoria salarial ou a suspensão de capitães carismáticos como Fernando Mendes e Mário Lino quando agiram em nome de reclamações do plantel configuram essa desadequação à nova realidade do futebol moderno.

A concepção olímpica e formativa do desporto (e do futebol, em particular) integra a matriz identitária do Sporting. Foi consequência desse princípio formativo a criação, em 1939, da primeira escola de futebol em Portugal pelo antigo jogador e director Alfredo Perdigão e pelo treinador Joseph Szabo. Da concepção olímpica resultou o reconhecido ecletismo leonino bem representado no Estádio de Alvalade (1956) com as argolas olímpicas na tribuna da bancada central e as pistas de ciclismo e de atletismo que circundavam o relvado.

O Benfica possuía uma cultura mais adequada à realidade sócio-cultural emergente, mais capitalista, em consequência do perfil-tipo dos seus dirigentes, caracteristicamente uma burguesia liberal na perspectiva da época. Por isso, tiveram uma percepção mais rápida da mudança dos tempos e adequaram-se com maior eficácia à nova realidade. Por exemplo, aceitaram as ideias de Otto Glória no sentido de profissionalizar a estrutura do futebol ou foram céleres a agir na contratação de Eusébio, acenando com “dinheiro fresco”, quando o clube de Alvalade ainda se fiava num qualquer acordo de cavalheiros ou num proteccionismo corporativo em virtude do jogador ser atleta da sua filial laurentina.

A influência do Benfica nas estruturas institucionais do futebol, federativa e arbitragem, consolidou-se a partir da década de 1950 através do trabalho laborioso de vários dirigentes que souberam aliciar cada vez mais protagonistas para a compreensão dos interesses do clube.

– As sucessivas crises financeiras no Sporting a partir da década de 1920

Lagartos17Fev51

Avante, as obras do Estádio! Adquira um “lagarto”!

Na segunda metade da década de 1950, o Sporting atravessou dificuldades financeiras devido à construção do Estádio José Alvalade, agravadas num contexto de institucionalização do futebol profissional. Nessa altura, o técnico Enrique Fernandez procedia à renovação da equipa, depois de concluído o ciclo de maior êxito na história do futebol leonino.

Mas, a situação crítica vivida pelo Sporting de um ponto de vista financeiro é muito anterior, tendo raízes nos anos vinte do século XX. Nesta altura verificaram-se vários episódios que confirmam essa crise, particularmente a nomeação de uma Comissão Administrativa presidida por Sanches Navarro (1926), e a “Questão Jorge Vieira” (1929). Nas décadas de 1930 e 1940 alternaram-se os anos de saldos positivos e negativos, atenuados pelo sucesso desportivo da equipa principal de futebol que evitou uma maior visibilidade das dificuldades financeiras.

Posteriormente, nos anos 60, os aspectos económicos continuaram a condicionar a vida administrativa e desportiva do Sporting, conduzindo à criação de uma Comissão Administrativa presidida por Brás Medeiros (1965), que aplicou um severo programa de disciplina orçamental. No entanto, nesse período de tempo outros clubes também tiveram graves constrangimentos financeiros. Foi o caso do Benfica.

– O “efeito” Otto Glória no Benfica (1954-59)

Otto Glória

Há pessoas capazes de marcar o destino das instituições que servem. Aconteceu com Otto Glória, treinador do Benfica entre 1954 e 1958, e que se tornou numa das maiores figuras do futebol português, que revolucionou, introduzindo novos métodos de trabalho e o profissionalismo, com todas as suas exigências. Isto, sem esquecer as inovações tácticas, nomeadamente o 4-2-4 que veio substituir o até aí predominante WM.

Otto Glória profissionalizou a estrutura benfiquista ligada ao futebol e dispôs de uma autonomia que não se verificava noutro clube em Portugal. As suas ideias implicaram a criação do Lar do Jogador, a instauração de concentrações e estágios, a elaboração de regulamentos muito rigorosos e a proibição dos directores de entrarem no balneário. O técnico brasileiro teve um sucesso imediato, conquistou dois campeonatos e três taças de Portugal, e lançou as sementes de uma grande equipa. E preparou o Benfica para as duas décadas seguintes.

De facto, depois do título conquistado em 1954, o Sporting foi o Campeão Nacional numa estranha sucessão cronológica de quatro em quatro anos (1958, 1962, 1966, 1970 e 1974). Não voltaria a usufruir da hegemonia no futebol português, surgindo frequentemente como um outsider a partir do momento em que o FC Porto quebrou o jejum de um longo período sem vencer o título (1978) e, em particular, quando a dupla Pinto da Costa-Pedroto lançou os alicerces de um clube que não tremia quando passava o rio Douro em direcção ao Sul. Nessa altura, João Rocha presidia ao Sporting e, apesar do seu conhecimento, sagacidade e competência, não conseguiu impedir o desenrolar dos acontecimentos.

– Breves notas finais

A perda da hegemonia no futebol português pelo Sporting Clube de Portugal decorreu de um movimento estrutural definido pela disseminação no clube, ao nível ideológico, de uma concepção olímpica e formativa do desporto que impediu uma transição eficaz do semiprofissionalismo para o profissionalismo no futebol. Também teve um grande impacto a longa persistência de dificuldades financeiras, a que se associou a dimensão conjuntural do “efeito” Otto Glória no clube da Luz. No Benfica não se verificou esse condicionalismo ideológico, essencialmente pela cultura e percurso histórico do clube e pela matriz social dos seus principais dirigentes.

Considero que outros aspectos meramente conjunturais, como as dificuldades decorrentes da construção do Estádio de Alvalade (1956) ou a poderosa equipa do Benfica (Águas, Coluna, Germano…), nunca teriam obtido um efeito tão dramático. Também não será aceitável valorizar-se um hipotético apoio do Estado Novo ao Benfica. Na realidade, o regime de Salazar não teve uma orientação programática para os desportos colectivos e de massas, que aliás sempre o perturbaram, privilegiando a ginástica, a vela, a esgrima ou o hipismo que se integravam muito melhor na “política do espírito” de António Ferro.

Para agir sobre o presente é indispensável conhecer o passado que constitui o elemento estruturante em instituições ou indivíduos. O Sporting confronta-se, agora, com um tempo de esperança tantas vezes imaginado num passado recente. Estou convicto que, para o clube voltar a viver os momentos de glória do passado, deve realizar um caminho renovador na área organizacional, estrutural e comunicacional, mas simultaneamente integrador das suas invulgares tradições desportivas e simbólicas. Para isso torna-se necessário avaliar de forma crítica e autêntica os seus momentos de glória e quando soçobrou pelas suas contradições ou incapacidades.

 

 

(1) José Salazar Carreira foi atleta do Sporting durante 25 anos em diversas modalidades. Exerceu funções de treinador, dirigente, diretor do “Boletim Sporting” e presidente do Clube.

Redigiu em 1924 os “10 Mandamentos do Sporting”:

2º Presta ao teu Clube o teu auxílio desportivo sempre que ele to exija. Seja qual for o teu mérito não tens direito a regatear.

3.º Quando envergares a camisola verde e branca lembra-te que a colectividade te honra, distinguindo-te como seu representante. Faz portanto, quanto possas para merecer a distinção conferida.

(http://www.sportingcanal.com/?p=1003)

(2) O “Estatuto do Jogador do Sporting” foi publicado no jornal Sporting, em Setembro de 1950: “Homem e artista, jogador e atleta, homem acima de tudo, o jogador de futebol do Sporting, por este diploma que é o seu estatuto, sabe quais são os seus direitos e deveres e os benefícios que dele colhe, sendo honesto e desportista. E ser desportista é ser camarada, leal e generoso, lutando até à exaustão pela camisola que enverga, correspondendo com amor e desvanecimento à prova de confiança de quem lhe deu o lugar em qualquer das turmas representativas do seu Clube. Que assim seja sempre, para grandeza e prestígio do Sporting Clube de Portugal.” (http://www.sportingcanal.com/?p=6977)

 

 

 

 

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Já não bastava terem eliminado Portugal do Mundial e terem partido dois dentes ao “capitão” Pedroto…

por João Tiago Lima

 

No domingo passado em Camp Nou, aos oitenta e um minutos de jogo, Messi prepara-se para bater um penalty que pode assinar definitivamente a vitória sobre o excelente Celta de Vigo, versão 2015-16. Ao que parece – pelo menos foi isso o que, depois da partida, o craque brasileiro confessou – a ideia seria que Lio tocasse a bola ligeiramente para a direita, permitindo assim que Neymar marcasse aquele que seria o seu primeiro tento do encontro. O resto da história é conhecido de todos, o uruguaio Luis Suárez antecipou-se, quer ao veloz ex-jogador do Santos, quer ao defesa galego, e perfez um hat-trick dos puros.

Deste modo, um jogo, que, aos olhos do mundo, parecia desgraçadamente banal (mais uma vitória tranquila de um Barça em grande forma), ganhou a aura de acontecimento. Alguma controvérsia acabou por surgir. Antes de mais, perguntou-se se se tratava, ou não, de uma criação original. Depois, se o lance foi, ou não, executado dentro das leis do jogo. Por fim, se marcar uma grande penalidade desta maneira era, ou não, uma acção eticamente censurável.

 

 

Tomando como fontes documentais as edições desta semana do diário A Bola (mas não apenas elas), é possível chegar a algumas conclusões. Na segunda-feira, em notícia assinada por Pereira Ramos, com o título “Messi e Suárez num penalty histórico”, o leitor mais desatento é informado de que o lance não é criação do fabuloso trio atacante do Barça. Para além do já bem conhecido exemplo de Johan Cruyff, a 5 de dezembro de 1982, no que passou a ser designado por penalty indirecto (cf. vídeo a seguir), pois o holandês do Ajax toca para Jesper Olsen e este devolve o esférico a Cruyff que remate para a baliza do modestíssimo adversário, Helmond, terá havido um antecedente belga (será o fenómeno explicado pelas idiossincrasias flamengas?), que até 2015 (ano da sua morte) dava pelo nome de Rik Coppens. Num jogo da qualificação para o Mundial da Suécia de 1958, realizado em 5 de Junho do ano anterior, entre a Bélgica e a Islândia, Coppens passou ao colega Piters que lha devolveu. Resultado final deste jogo realizado em Bruxelas? Uns esmagadores oito a três a favor dos visitados que, no entanto, se veriam eliminados da fase final da prova pela França dos sumptuosos Raymond Kopa e Just Fontaine.

 

Todavia, na edição de A Bola de terça-feira, em caixa anexa ao artigo assinado por Miguel Correia com o título “Histórico mas irregular”, onde se analisa a legalidade do lance entre Messi e Neymar, avança-se com um facto novo. Afinal, parece que há um precursor mais antigo (não muito mais, mas…) desta originalidade. Com efeito, num Irlanda de Norte vs Portugal de má memória para a equipa de todos nós, o capitão Blanchflower, encarregue de marcar um castigo máximo assinalado pelo escocês Hugh Philips, decidiu fazer a gracinha de servir de bandeja o seu compatriota Mcllroy que, aos sessenta e quatro, fechou o placard com o que seriam uns irrevogáveis três a zero se o árbitro não tivesse reparado na infracção que, no domingo, passou desapercebida ao senhor Hernandéz. Repetido o penalty, Mcllroy não perdoou.  Quem não deve ter achado nenhuma piada à invenção norte-irlandesa foi o capitão lusitano, o mítico José Maria Pedroto que, ainda por cima, já tinha por esta altura perdido dois dentes, causados pela irish fury dos adversários. O próprio Carlos Gomes, guarda-redes da selecção nessa noite em Belfast, disse depois do prélio aos jornalistas que nem sequer se recordava desse terceiro (e histórico, sabemo-lo hoje) golo «por ter levado um pontapé nas costas, caindo, no relvado, completamente KO». Enfim, uma derrota para esquecer e que as habilidades catalãs do passado fim de semana convidam a revisitar.

pedroto


Belfast, 1 de Maio de 1957 Numa derrota por 3-0 frente à Irlanda de Norte, Pedroto estreia-se como capitão de Portugal e perde dois dentes. Mas o jogo ficou na história do futebol mundial também por outros motivos

 

Mude-se, então, de assunto. Foi o golo de Suárez legítimo em termos regulamentares? Ao que parece, não, pois quer ele, quer o defesa do Celta Alejandro Cabral, invadiram a grande-área antes de Messi tocar no esférico. O árbitro e os auxiliares, talvez enfastiados pela superioridade blaugrana, não repararam no ligeiríssimo atropelo das regras. Ou, então, encolheram os ombros e decidiram embarcar no comboio da glória. Aqui fica o nome completo do senhor do apito que, se tivesse feito cumprir as leis do jogo, jamais seria referido neste blog: Dom Alejandro José Hernandéz y Hernandéz. Lance ilegal, portanto.

Passando por cima das enigmáticas declarações de Cristiano Ronaldo, em vésperas do Roma vs Real Madrid para a Champions, que me parecem mais um sintoma do seu infeliz complexo de perseguição, falta ainda perguntar o seguinte: o modo como o Barcelona marcou o quarto golo ao Celta é eticamente censurável?

Numa crónica da sua Coluna do Senador, vinda a público na edição de sexta-feira de A Bola, Sérgio Abrantes Mendes escreve a sua opinião: «Messi e Suárez, ao marcarem a penalidade da forma que todos vimos, procuraram amesquinhar e ridicularizar os adversários sob o aplauso do chauvinismo culé. Em Inglaterra ou na Alemanha, uma tal atitude não passaria em claro. Por cá, apenas referências à legalidade do procedimento. Por essas e por outras é que os latinos, com as bravatas costumeiras, não passam da cepa torta. Está-lhes na massa do sangue». Devo dizer que simpatizo bastante com as crónicas de Abrantes Mendes, mas, pelo menos desta vez, não posso estar mais em desacordo. De resto, é a própria história do penalty indirecto que, de algum modo, refuta a sua tese que associa latinidade e grandes penalidades marcadas em parceria. Como vimos, Mcllroy, Coppens e Cruyff não pertencem a uma cultura futebolística mediterrânica. Claro que o extraordinário médio ofensivo holandês teve uma passagem marcante em Camp Nou – a minha primeira reacção ao que se passou no último domingo foi de que se tratava, precisamente, de uma justíssima homenagem a Johan que luta neste momento contra um terrível cancro –, mas nas suas veias não consta que corra uma gota de sangue hispânico ou sequer catalão.

Por outro lado, e é esta a questão decisiva, não considero nenhuma falta de desportivismo o chamado penalty indirecto. Li até alguns comentários a dizer que, caso se se tratasse de um jogo decisivo, Messi teria rematado directamente à baliza. É possível. Do meu ponto de vista, esta é apenas uma criativa forma de surpreender o adversário, tão louvável como a paradinha ou o remate à Panenka, por exemplo (1). Aliás, quando vejo “craques mimados” a amuar e a discutir acerca de quem tem o direito divino de bater penalties, a espontaneidade dos abraços entre Messi, Suárez e Neymar, quando festejam os golos dos três, faz-me lembrar que a beleza do futebol é um eterno retorno à alegria mais pura de um jogo de crianças na rua. E é também por isso que o futebol deste Barça de Luiz Enrique me encanta.

camp nou janeiro 2016

O escriba em Camp Nou durante o Barça vs Granada (4×0) no passado dia 9 de Janeiro

 

(1) De resto, não marcou Helder Postiga um penalty à Panenka num jogo decisivo do Euro 2004? Não imagino o que teria sido, caso o agora vila-condense tivesse falhado, mas a verdade é que, ao cometer aquela impensável ousadia, entrou para a história do nosso futebol.

 

 

 

 

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Futebol e Cidadania: em memória de António Almeida Santos

por Alcino Pedrosa

“Futebol e religião têm algo em comum.

Em nenhum dos dois há lugar para um racionalista puro”

 

 

 

almeida santos

António Almeida Santos (1926-2016)

 

Estas palavras, ouvi-as, em finais da década de 1990, numa tertúlia, realizada nas instalações da Associação Académica de Coimbra, que reuniu à mesma mesa António Almeida Santos – o autor da citação com que abro este texto – e outros participantes ilustres, entre os quais Gonçalo Reis Torgal (também ele recentemente desaparecido), um como o outro, homens de profundas convicções e paixões, nomeadamente pela Académica, cuja história se identificava com as suas vidas. Fui levado para essa tertúlia por um amigo de longa data, de militâncias e de conversas de geometria variável, mas sempre profícuas e apaixonantes – João Mesquita, jornalista e escritor, co-autor do livro Académica, história do futebol.

Almeida Santos, embora não reivindicasse o epíteto, era um erudito. Leitor ávido desde a infância, revelava-se bastante ecléctico: lia autores dos mais variados géneros e escolas – da poesia romântica aos textos jurídicos, do conto modernista ao ensaio político. E não só: sentia-se atraído por uma boa crónica desportiva, apesar de assumir que, em matéria de futebol, não cedia um espaço alargado à objectividade. Para ele, a Académica era uma espécie de religião, um universo de sentidos e representações que transcendia a simples análise racional.

Em dado momento da conversa, um dos presentes, perante o modo emocionado como o histórico socialista falava da sua Académica, perguntou-lhe se concordava com a ideia, professa por alguns intelectuais, de que o futebol era o ópio do povo. Almeida Santos, fixando-o com convicção e veemência respondeu: “Não é ópio nenhum. O futebol, quando bem entendido e melhor vivido, liberta”. E, não deixando lugar a nova questão, desenvolveu a sua afirmação, trazendo à colação, em jeito de fundamentação, o episódio da final da Taça de Portugal, em 1969. “Uma jornada inesquecível  – sublinhou – em que um jogo de futebol foi muito mais do que isso, tornando-se numa poderosa manifestação cívica, que abalou o regime salazarista. Aquela equipa – disse – demonstrou a sua solidariedade e cumplicidade com o movimento estudantil, representando-o com dignidade e coragem, abalando os alicerces da ditadura. Nesse dia, fiquei com a certeza que o regime tinha os seus dias contados.

taça 69

Imagem retirada de Correio da Manhã, revista Domingo, 20.05.12, p. 34

 

 

Com esta intervenção, Almeida Santos tomou conta do jogo, melhor dizendo da tertúlia. Não foi necessário ter a rapidez de Bentes, “o rato atómico, para dar um novo rumo à conversa. Bastou-lhe ter a precisão do capitão Gervásio e adornar o lance com salpicos da criatividade do macaense Rocha. Com um passe de trinta metros, colocou a bola no campo adversário, questionando os presentes: Já pensaram no papel que o futebol poderia desempenhar como elemento construtor da cidadania?” O jogo, melhor, o debate conheceu um novo fôlego. As intervenções sucederam-se, demonstrando quão variável era a opinião dos presentes. Perante esta diversidade de posições, que parecia empastar a conversa não dando lugar a conclusões, Almeida Santos voltou a agitar as águas, marcando a sua presença forte no debate ao jeito de Mário Wilson. Fazendo uso de uma assertividade digna de Rui Rodrigues e de uma linearidade que pedia meças a Mário Campos, explanou o seu ponto de vista: o futebol, pela sua força mobilizadora, poderia ser um poderoso catalisador da construção do processo de cidadania. A sua prática promove a interiorização e naturalização de um conjunto substancial de aprendizagens – o respeito pelas regras, a disciplina, os compromissos com horários pré-estabelecidos, a responsabilidade com o colectivo, a cooperação com o companheiro, o estabelecimento de objectivos – essenciais a uma cidadania empenhada. A prática do futebol, concluiu, bem orientada, poderia ser um importante coadjuvante educacional, por permitir a abordagem de um conjunto de questões essenciais à aprendizagem dos jovens.

Nesta altura do debate, o aprendiz em que se tornara o autor deste texto, ao estilo de pontapé para a frente, interpelou o orador: “Essas potencialidades e virtudes estão presentes em todos os desportos colectivos”. Fazendo lembrar Manuel António, Almeida Santos rematou de primeira: “Nenhum deles, tem as potencialidades do futebol, pela capacidade mobilizadora que dispõe. Meu amigo é tudo uma questão de oportunidade “.

Hoje, recordando estas palavras, que cito de memória, sinto que as ideias de Almeida Santos não perderam significado. Ao fim e ao cabo, “as pequenas oportunidades são muitas vezes o começo de grandes empreendimentos” (Demóstenes).

 

 

 

 

 

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