Futebol e Cidadania: em memória de António Almeida Santos

por Alcino Pedrosa

“Futebol e religião têm algo em comum.

Em nenhum dos dois há lugar para um racionalista puro”

 

 

 

almeida santos

António Almeida Santos (1926-2016)

 

Estas palavras, ouvi-as, em finais da década de 1990, numa tertúlia, realizada nas instalações da Associação Académica de Coimbra, que reuniu à mesma mesa António Almeida Santos – o autor da citação com que abro este texto – e outros participantes ilustres, entre os quais Gonçalo Reis Torgal (também ele recentemente desaparecido), um como o outro, homens de profundas convicções e paixões, nomeadamente pela Académica, cuja história se identificava com as suas vidas. Fui levado para essa tertúlia por um amigo de longa data, de militâncias e de conversas de geometria variável, mas sempre profícuas e apaixonantes – João Mesquita, jornalista e escritor, co-autor do livro Académica, história do futebol.

Almeida Santos, embora não reivindicasse o epíteto, era um erudito. Leitor ávido desde a infância, revelava-se bastante ecléctico: lia autores dos mais variados géneros e escolas – da poesia romântica aos textos jurídicos, do conto modernista ao ensaio político. E não só: sentia-se atraído por uma boa crónica desportiva, apesar de assumir que, em matéria de futebol, não cedia um espaço alargado à objectividade. Para ele, a Académica era uma espécie de religião, um universo de sentidos e representações que transcendia a simples análise racional.

Em dado momento da conversa, um dos presentes, perante o modo emocionado como o histórico socialista falava da sua Académica, perguntou-lhe se concordava com a ideia, professa por alguns intelectuais, de que o futebol era o ópio do povo. Almeida Santos, fixando-o com convicção e veemência respondeu: “Não é ópio nenhum. O futebol, quando bem entendido e melhor vivido, liberta”. E, não deixando lugar a nova questão, desenvolveu a sua afirmação, trazendo à colação, em jeito de fundamentação, o episódio da final da Taça de Portugal, em 1969. “Uma jornada inesquecível  – sublinhou – em que um jogo de futebol foi muito mais do que isso, tornando-se numa poderosa manifestação cívica, que abalou o regime salazarista. Aquela equipa – disse – demonstrou a sua solidariedade e cumplicidade com o movimento estudantil, representando-o com dignidade e coragem, abalando os alicerces da ditadura. Nesse dia, fiquei com a certeza que o regime tinha os seus dias contados.

taça 69

Imagem retirada de Correio da Manhã, revista Domingo, 20.05.12, p. 34

 

 

Com esta intervenção, Almeida Santos tomou conta do jogo, melhor dizendo da tertúlia. Não foi necessário ter a rapidez de Bentes, “o rato atómico, para dar um novo rumo à conversa. Bastou-lhe ter a precisão do capitão Gervásio e adornar o lance com salpicos da criatividade do macaense Rocha. Com um passe de trinta metros, colocou a bola no campo adversário, questionando os presentes: Já pensaram no papel que o futebol poderia desempenhar como elemento construtor da cidadania?” O jogo, melhor, o debate conheceu um novo fôlego. As intervenções sucederam-se, demonstrando quão variável era a opinião dos presentes. Perante esta diversidade de posições, que parecia empastar a conversa não dando lugar a conclusões, Almeida Santos voltou a agitar as águas, marcando a sua presença forte no debate ao jeito de Mário Wilson. Fazendo uso de uma assertividade digna de Rui Rodrigues e de uma linearidade que pedia meças a Mário Campos, explanou o seu ponto de vista: o futebol, pela sua força mobilizadora, poderia ser um poderoso catalisador da construção do processo de cidadania. A sua prática promove a interiorização e naturalização de um conjunto substancial de aprendizagens – o respeito pelas regras, a disciplina, os compromissos com horários pré-estabelecidos, a responsabilidade com o colectivo, a cooperação com o companheiro, o estabelecimento de objectivos – essenciais a uma cidadania empenhada. A prática do futebol, concluiu, bem orientada, poderia ser um importante coadjuvante educacional, por permitir a abordagem de um conjunto de questões essenciais à aprendizagem dos jovens.

Nesta altura do debate, o aprendiz em que se tornara o autor deste texto, ao estilo de pontapé para a frente, interpelou o orador: “Essas potencialidades e virtudes estão presentes em todos os desportos colectivos”. Fazendo lembrar Manuel António, Almeida Santos rematou de primeira: “Nenhum deles, tem as potencialidades do futebol, pela capacidade mobilizadora que dispõe. Meu amigo é tudo uma questão de oportunidade “.

Hoje, recordando estas palavras, que cito de memória, sinto que as ideias de Almeida Santos não perderam significado. Ao fim e ao cabo, “as pequenas oportunidades são muitas vezes o começo de grandes empreendimentos” (Demóstenes).

 

 

 

 

 

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Uma resposta a Futebol e Cidadania: em memória de António Almeida Santos

  1. António Almeida Santos diz:

    Grande texto, em jeito de relato, a lembrar uma das paixões do meu pai, que foram tantas, pelo futebol em geral e pela sua Académica em particular. também eu me lembro que, mais recentemente, já poucas coisas lhe acendiam “um brilhozinho nos olhos”, mas a sua Briosa ainda o conseguia.
    Aquele abraço e obrigado pelas lágrimas.
    António

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