Já não bastava terem eliminado Portugal do Mundial e terem partido dois dentes ao “capitão” Pedroto…

por João Tiago Lima

 

No domingo passado em Camp Nou, aos oitenta e um minutos de jogo, Messi prepara-se para bater um penalty que pode assinar definitivamente a vitória sobre o excelente Celta de Vigo, versão 2015-16. Ao que parece – pelo menos foi isso o que, depois da partida, o craque brasileiro confessou – a ideia seria que Lio tocasse a bola ligeiramente para a direita, permitindo assim que Neymar marcasse aquele que seria o seu primeiro tento do encontro. O resto da história é conhecido de todos, o uruguaio Luis Suárez antecipou-se, quer ao veloz ex-jogador do Santos, quer ao defesa galego, e perfez um hat-trick dos puros.

Deste modo, um jogo, que, aos olhos do mundo, parecia desgraçadamente banal (mais uma vitória tranquila de um Barça em grande forma), ganhou a aura de acontecimento. Alguma controvérsia acabou por surgir. Antes de mais, perguntou-se se se tratava, ou não, de uma criação original. Depois, se o lance foi, ou não, executado dentro das leis do jogo. Por fim, se marcar uma grande penalidade desta maneira era, ou não, uma acção eticamente censurável.

 

 

Tomando como fontes documentais as edições desta semana do diário A Bola (mas não apenas elas), é possível chegar a algumas conclusões. Na segunda-feira, em notícia assinada por Pereira Ramos, com o título “Messi e Suárez num penalty histórico”, o leitor mais desatento é informado de que o lance não é criação do fabuloso trio atacante do Barça. Para além do já bem conhecido exemplo de Johan Cruyff, a 5 de dezembro de 1982, no que passou a ser designado por penalty indirecto (cf. vídeo a seguir), pois o holandês do Ajax toca para Jesper Olsen e este devolve o esférico a Cruyff que remate para a baliza do modestíssimo adversário, Helmond, terá havido um antecedente belga (será o fenómeno explicado pelas idiossincrasias flamengas?), que até 2015 (ano da sua morte) dava pelo nome de Rik Coppens. Num jogo da qualificação para o Mundial da Suécia de 1958, realizado em 5 de Junho do ano anterior, entre a Bélgica e a Islândia, Coppens passou ao colega Piters que lha devolveu. Resultado final deste jogo realizado em Bruxelas? Uns esmagadores oito a três a favor dos visitados que, no entanto, se veriam eliminados da fase final da prova pela França dos sumptuosos Raymond Kopa e Just Fontaine.

 

Todavia, na edição de A Bola de terça-feira, em caixa anexa ao artigo assinado por Miguel Correia com o título “Histórico mas irregular”, onde se analisa a legalidade do lance entre Messi e Neymar, avança-se com um facto novo. Afinal, parece que há um precursor mais antigo (não muito mais, mas…) desta originalidade. Com efeito, num Irlanda de Norte vs Portugal de má memória para a equipa de todos nós, o capitão Blanchflower, encarregue de marcar um castigo máximo assinalado pelo escocês Hugh Philips, decidiu fazer a gracinha de servir de bandeja o seu compatriota Mcllroy que, aos sessenta e quatro, fechou o placard com o que seriam uns irrevogáveis três a zero se o árbitro não tivesse reparado na infracção que, no domingo, passou desapercebida ao senhor Hernandéz. Repetido o penalty, Mcllroy não perdoou.  Quem não deve ter achado nenhuma piada à invenção norte-irlandesa foi o capitão lusitano, o mítico José Maria Pedroto que, ainda por cima, já tinha por esta altura perdido dois dentes, causados pela irish fury dos adversários. O próprio Carlos Gomes, guarda-redes da selecção nessa noite em Belfast, disse depois do prélio aos jornalistas que nem sequer se recordava desse terceiro (e histórico, sabemo-lo hoje) golo «por ter levado um pontapé nas costas, caindo, no relvado, completamente KO». Enfim, uma derrota para esquecer e que as habilidades catalãs do passado fim de semana convidam a revisitar.

pedroto


Belfast, 1 de Maio de 1957 Numa derrota por 3-0 frente à Irlanda de Norte, Pedroto estreia-se como capitão de Portugal e perde dois dentes. Mas o jogo ficou na história do futebol mundial também por outros motivos

 

Mude-se, então, de assunto. Foi o golo de Suárez legítimo em termos regulamentares? Ao que parece, não, pois quer ele, quer o defesa do Celta Alejandro Cabral, invadiram a grande-área antes de Messi tocar no esférico. O árbitro e os auxiliares, talvez enfastiados pela superioridade blaugrana, não repararam no ligeiríssimo atropelo das regras. Ou, então, encolheram os ombros e decidiram embarcar no comboio da glória. Aqui fica o nome completo do senhor do apito que, se tivesse feito cumprir as leis do jogo, jamais seria referido neste blog: Dom Alejandro José Hernandéz y Hernandéz. Lance ilegal, portanto.

Passando por cima das enigmáticas declarações de Cristiano Ronaldo, em vésperas do Roma vs Real Madrid para a Champions, que me parecem mais um sintoma do seu infeliz complexo de perseguição, falta ainda perguntar o seguinte: o modo como o Barcelona marcou o quarto golo ao Celta é eticamente censurável?

Numa crónica da sua Coluna do Senador, vinda a público na edição de sexta-feira de A Bola, Sérgio Abrantes Mendes escreve a sua opinião: «Messi e Suárez, ao marcarem a penalidade da forma que todos vimos, procuraram amesquinhar e ridicularizar os adversários sob o aplauso do chauvinismo culé. Em Inglaterra ou na Alemanha, uma tal atitude não passaria em claro. Por cá, apenas referências à legalidade do procedimento. Por essas e por outras é que os latinos, com as bravatas costumeiras, não passam da cepa torta. Está-lhes na massa do sangue». Devo dizer que simpatizo bastante com as crónicas de Abrantes Mendes, mas, pelo menos desta vez, não posso estar mais em desacordo. De resto, é a própria história do penalty indirecto que, de algum modo, refuta a sua tese que associa latinidade e grandes penalidades marcadas em parceria. Como vimos, Mcllroy, Coppens e Cruyff não pertencem a uma cultura futebolística mediterrânica. Claro que o extraordinário médio ofensivo holandês teve uma passagem marcante em Camp Nou – a minha primeira reacção ao que se passou no último domingo foi de que se tratava, precisamente, de uma justíssima homenagem a Johan que luta neste momento contra um terrível cancro –, mas nas suas veias não consta que corra uma gota de sangue hispânico ou sequer catalão.

Por outro lado, e é esta a questão decisiva, não considero nenhuma falta de desportivismo o chamado penalty indirecto. Li até alguns comentários a dizer que, caso se se tratasse de um jogo decisivo, Messi teria rematado directamente à baliza. É possível. Do meu ponto de vista, esta é apenas uma criativa forma de surpreender o adversário, tão louvável como a paradinha ou o remate à Panenka, por exemplo (1). Aliás, quando vejo “craques mimados” a amuar e a discutir acerca de quem tem o direito divino de bater penalties, a espontaneidade dos abraços entre Messi, Suárez e Neymar, quando festejam os golos dos três, faz-me lembrar que a beleza do futebol é um eterno retorno à alegria mais pura de um jogo de crianças na rua. E é também por isso que o futebol deste Barça de Luiz Enrique me encanta.

camp nou janeiro 2016

O escriba em Camp Nou durante o Barça vs Granada (4×0) no passado dia 9 de Janeiro

 

(1) De resto, não marcou Helder Postiga um penalty à Panenka num jogo decisivo do Euro 2004? Não imagino o que teria sido, caso o agora vila-condense tivesse falhado, mas a verdade é que, ao cometer aquela impensável ousadia, entrou para a história do nosso futebol.

 

 

 

 

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