O Sporting e a perda da hegemonia no futebol português

 

por António Alfarrobinha

SCP 1953-54

Sporting tetracampeão (1954): uma imagem que não se repetiu

Em meados do século passado, o Sporting não conseguiu realizar com eficácia a transição do semiprofissionalismo para o profissionalismo no futebol, sendo ultrapassado pelo Benfica que possuía nessa altura uma equipa muito forte, reforçada por Eusébio em 1961, e que às vitórias internas aliou o sucesso na Taça dos Clubes Campeões Europeus em 1961 e 1962. Na realidade, foi na segunda metade da década de 1950 e na primeira de 1960 que o Benfica retirou ao clube de Alvalade a hegemonia no futebol português que, entre outros, os presidentes leoninos Oliveira Duarte e Ribeiro Ferreira conceberam e executaram.

Em Dezembro de 1961 o jornal Sporting, nº 568, publicou um extenso artigo de Couto e Santos, redactor do Mundo Desportivo, com o sugestivo título “Um Sporting campeão faz falta ao futebol português”. É o primeiro artigo de fundo sobre esta problemática de que conheço referência na imprensa desportiva. Compreende-se a surpresa de Couto e Santos, pois entre as épocas de 1940-41 e 1953-54 os leões conquistaram por nove vezes o Campeonato Nacional e cinco a Taça de Portugal. Depois, até 1961, houve apenas o título de campeão em 1958.

Era ainda muito jovem quando o Sporting conquistou o Campeonato Nacional em 1966, mas recordo-me perfeitamente da intensidade emocional com que esse título foi festejado pelos sportinguistas. Nesse tempo estava bem presente a memória do período mítico dos “cinco violinos” e muitos tinham-nos visto jogar. O presidente Brás Medeiros (1965-1973), pessoa de invulgar capacidade de liderança e de grande bagagem intelectual, percebeu com nitidez o que se passava e os mecanismos que explicavam a recente supremacia do Benfica. Agiu no sentido de alterar a situação, mas não conseguiu impedir o que já estava a acontecer e acabou por sair pela porta pequena em Abril de 1973.

Considero que a forma como o Sporting perdeu hegemonia no futebol português para o Benfica decorre de um conjunto de factores que se interligam e se condicionam. Desses factores, destaco três que considero determinantes: a incompreensão leonina da especificidade social e cultural do futebol profissional, as sucessivas crises financeiras no Sporting a partir da década de 1920 e o “efeito” Otto Glória no Benfica (1954-59).

– A incompreensão leonina da especificidade social e cultural do futebol profissional

Estádio José Alvalade 1956

Estádio olímpico de Alvalade (1956)

Para compreender o contexto em que o Sporting perdeu a hegemonia do futebol nacional a favor do Benfica tem interesse verificar quem foi eleito para dirigir o clube de Alvalade, na transição da década de 20 para a de 30 e nas seguintes. Depois de uma geração de directores em que muitos foram atletas (Mário Pistacchini, Soares Júnior, Júlio de Araújo, Sanches Navarro e Salazar Carreira), surgiu no clube um novo tipo de dirigentes oriundos da administração pública, ou que a ela tinham fortes ligações sociais e profissionais, ou que provinham do sector industrial, das forças militares e do próprio regime político (Salazar Carreira, Oliveira Duarte, Ribeiro Ferreira, Góis Mota, Cazal Ribeiro e Viana Rebelo, entre outros).

O Sporting dos anos 1940 e 1950 foi herdeiro de uma filosofia desportiva herdada do pensamento de Salazar Carreira, muito bem expresso em “Os 10 mandamentos do Sporting” (1) e no “Estatuto do Jogador do Sporting” (2), onde se encarava como uma honra e motivo de orgulho vestir a camisola leonina. Salazar Carreira, um atleta invulgarmente eclético, não encarava o futebol e os seus praticantes numa perspectiva moderna e capitalista, revendo-se numa concepção olímpica e formativa do desporto, enquanto que no Benfica já se considerava como uma profissão com características próprias. Tem interesse realçar que, naquele tempo, a profissão de “jogador de futebol” formalmente ainda não existia. Também se deve sublinhar que essa concepção olímpica não foi aplicada aos treinadores do Sporting, principalmente os estrangeiros, que eram muito bem remunerados.

Este elemento conceptual relativo ao “jogador de futebol”, impregnou a superestrutura ideológica do clube e determinou a sua dimensão organizacional e funcional, em particular as relações de poder. Por exemplo, condicionou fortemente a forma como as direcções leoninas reagiram perante reivindicações materiais feitas pelos seus atletas a título colectivo ou individual. A incompreensão das pretensões de Peyroteo na festa de despedida e de Carlos Gomes de melhoria salarial ou a suspensão de capitães carismáticos como Fernando Mendes e Mário Lino quando agiram em nome de reclamações do plantel configuram essa desadequação à nova realidade do futebol moderno.

A concepção olímpica e formativa do desporto (e do futebol, em particular) integra a matriz identitária do Sporting. Foi consequência desse princípio formativo a criação, em 1939, da primeira escola de futebol em Portugal pelo antigo jogador e director Alfredo Perdigão e pelo treinador Joseph Szabo. Da concepção olímpica resultou o reconhecido ecletismo leonino bem representado no Estádio de Alvalade (1956) com as argolas olímpicas na tribuna da bancada central e as pistas de ciclismo e de atletismo que circundavam o relvado.

O Benfica possuía uma cultura mais adequada à realidade sócio-cultural emergente, mais capitalista, em consequência do perfil-tipo dos seus dirigentes, caracteristicamente uma burguesia liberal na perspectiva da época. Por isso, tiveram uma percepção mais rápida da mudança dos tempos e adequaram-se com maior eficácia à nova realidade. Por exemplo, aceitaram as ideias de Otto Glória no sentido de profissionalizar a estrutura do futebol ou foram céleres a agir na contratação de Eusébio, acenando com “dinheiro fresco”, quando o clube de Alvalade ainda se fiava num qualquer acordo de cavalheiros ou num proteccionismo corporativo em virtude do jogador ser atleta da sua filial laurentina.

A influência do Benfica nas estruturas institucionais do futebol, federativa e arbitragem, consolidou-se a partir da década de 1950 através do trabalho laborioso de vários dirigentes que souberam aliciar cada vez mais protagonistas para a compreensão dos interesses do clube.

– As sucessivas crises financeiras no Sporting a partir da década de 1920

Lagartos17Fev51

Avante, as obras do Estádio! Adquira um “lagarto”!

Na segunda metade da década de 1950, o Sporting atravessou dificuldades financeiras devido à construção do Estádio José Alvalade, agravadas num contexto de institucionalização do futebol profissional. Nessa altura, o técnico Enrique Fernandez procedia à renovação da equipa, depois de concluído o ciclo de maior êxito na história do futebol leonino.

Mas, a situação crítica vivida pelo Sporting de um ponto de vista financeiro é muito anterior, tendo raízes nos anos vinte do século XX. Nesta altura verificaram-se vários episódios que confirmam essa crise, particularmente a nomeação de uma Comissão Administrativa presidida por Sanches Navarro (1926), e a “Questão Jorge Vieira” (1929). Nas décadas de 1930 e 1940 alternaram-se os anos de saldos positivos e negativos, atenuados pelo sucesso desportivo da equipa principal de futebol que evitou uma maior visibilidade das dificuldades financeiras.

Posteriormente, nos anos 60, os aspectos económicos continuaram a condicionar a vida administrativa e desportiva do Sporting, conduzindo à criação de uma Comissão Administrativa presidida por Brás Medeiros (1965), que aplicou um severo programa de disciplina orçamental. No entanto, nesse período de tempo outros clubes também tiveram graves constrangimentos financeiros. Foi o caso do Benfica.

– O “efeito” Otto Glória no Benfica (1954-59)

Otto Glória

Há pessoas capazes de marcar o destino das instituições que servem. Aconteceu com Otto Glória, treinador do Benfica entre 1954 e 1958, e que se tornou numa das maiores figuras do futebol português, que revolucionou, introduzindo novos métodos de trabalho e o profissionalismo, com todas as suas exigências. Isto, sem esquecer as inovações tácticas, nomeadamente o 4-2-4 que veio substituir o até aí predominante WM.

Otto Glória profissionalizou a estrutura benfiquista ligada ao futebol e dispôs de uma autonomia que não se verificava noutro clube em Portugal. As suas ideias implicaram a criação do Lar do Jogador, a instauração de concentrações e estágios, a elaboração de regulamentos muito rigorosos e a proibição dos directores de entrarem no balneário. O técnico brasileiro teve um sucesso imediato, conquistou dois campeonatos e três taças de Portugal, e lançou as sementes de uma grande equipa. E preparou o Benfica para as duas décadas seguintes.

De facto, depois do título conquistado em 1954, o Sporting foi o Campeão Nacional numa estranha sucessão cronológica de quatro em quatro anos (1958, 1962, 1966, 1970 e 1974). Não voltaria a usufruir da hegemonia no futebol português, surgindo frequentemente como um outsider a partir do momento em que o FC Porto quebrou o jejum de um longo período sem vencer o título (1978) e, em particular, quando a dupla Pinto da Costa-Pedroto lançou os alicerces de um clube que não tremia quando passava o rio Douro em direcção ao Sul. Nessa altura, João Rocha presidia ao Sporting e, apesar do seu conhecimento, sagacidade e competência, não conseguiu impedir o desenrolar dos acontecimentos.

– Breves notas finais

A perda da hegemonia no futebol português pelo Sporting Clube de Portugal decorreu de um movimento estrutural definido pela disseminação no clube, ao nível ideológico, de uma concepção olímpica e formativa do desporto que impediu uma transição eficaz do semiprofissionalismo para o profissionalismo no futebol. Também teve um grande impacto a longa persistência de dificuldades financeiras, a que se associou a dimensão conjuntural do “efeito” Otto Glória no clube da Luz. No Benfica não se verificou esse condicionalismo ideológico, essencialmente pela cultura e percurso histórico do clube e pela matriz social dos seus principais dirigentes.

Considero que outros aspectos meramente conjunturais, como as dificuldades decorrentes da construção do Estádio de Alvalade (1956) ou a poderosa equipa do Benfica (Águas, Coluna, Germano…), nunca teriam obtido um efeito tão dramático. Também não será aceitável valorizar-se um hipotético apoio do Estado Novo ao Benfica. Na realidade, o regime de Salazar não teve uma orientação programática para os desportos colectivos e de massas, que aliás sempre o perturbaram, privilegiando a ginástica, a vela, a esgrima ou o hipismo que se integravam muito melhor na “política do espírito” de António Ferro.

Para agir sobre o presente é indispensável conhecer o passado que constitui o elemento estruturante em instituições ou indivíduos. O Sporting confronta-se, agora, com um tempo de esperança tantas vezes imaginado num passado recente. Estou convicto que, para o clube voltar a viver os momentos de glória do passado, deve realizar um caminho renovador na área organizacional, estrutural e comunicacional, mas simultaneamente integrador das suas invulgares tradições desportivas e simbólicas. Para isso torna-se necessário avaliar de forma crítica e autêntica os seus momentos de glória e quando soçobrou pelas suas contradições ou incapacidades.

 

 

(1) José Salazar Carreira foi atleta do Sporting durante 25 anos em diversas modalidades. Exerceu funções de treinador, dirigente, diretor do “Boletim Sporting” e presidente do Clube.

Redigiu em 1924 os “10 Mandamentos do Sporting”:

2º Presta ao teu Clube o teu auxílio desportivo sempre que ele to exija. Seja qual for o teu mérito não tens direito a regatear.

3.º Quando envergares a camisola verde e branca lembra-te que a colectividade te honra, distinguindo-te como seu representante. Faz portanto, quanto possas para merecer a distinção conferida.

(http://www.sportingcanal.com/?p=1003)

(2) O “Estatuto do Jogador do Sporting” foi publicado no jornal Sporting, em Setembro de 1950: “Homem e artista, jogador e atleta, homem acima de tudo, o jogador de futebol do Sporting, por este diploma que é o seu estatuto, sabe quais são os seus direitos e deveres e os benefícios que dele colhe, sendo honesto e desportista. E ser desportista é ser camarada, leal e generoso, lutando até à exaustão pela camisola que enverga, correspondendo com amor e desvanecimento à prova de confiança de quem lhe deu o lugar em qualquer das turmas representativas do seu Clube. Que assim seja sempre, para grandeza e prestígio do Sporting Clube de Portugal.” (http://www.sportingcanal.com/?p=6977)

 

 

 

 

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