A PAIXÂO DO ADEPTO [EU PORTISTA ME CONFESSO]

por Alcino Pedrosa

 

Diz-se que o futebol é paixão. Paixão pelo jogo, por uma equipa, pela cor de uma camisola, por um emblema ou por uma região. Para mim, é muito mais do que isso: é uma grande viagem. Uma viagem pela memória, onde revisito momentos verdadeiramente inesquecíveis, como os que caracterizaram a gesta de 2004, que culminou na final de Gelsenkirchen, onde o F. C. do Porto se sagrou campeão europeu. Ou a primeira camisola azul e branca que recebi, tinha eu quatro anos e mal conhecia os nomes dos clubes e jogadores de então.

gelsenkirchen

Bilhetes da final da Champions League de 2004 (FC Porto vs AS Monaco)

Quando penso no futebol, viajo no tempo e através de uma pluralidade de sentimentos e emoções. Porque um jogo pode representar o melhor, mas também, o pior. Recordo a penúltima jornada do campeonato de 2012-2013. A felicidade estava estampada no rosto dos adeptos benfiquistas presentes no estádio do Dragão. Poucos eram os que imaginavam que ao minuto 92 essa felicidade passaria a tristeza, por força da certeza de passe e da inspiração de dois jogadores, heróis improváveis de uma jornada que parecia ter já o destino traçado. Esta é, talvez, a primeira grande verdade do futebol: um jogo pode ter duas faces totalmente distintas, o céu e o inferno, chamemos-lhe assim, em 90 minutos.

 

kelvin

No futebol tudo pode mudar num momento apenas: Kelvin ou o pontapé decisivo de um herói improvável

Com a mesma serenidade com que aprendi a viver com as recordações da infância, aprendi a viver com as alegrias que o meu clube de coração me proporcionou. Não me dá essa paixão para os arrebatamentos de espírito que fazem os grandes conquistadores ou as figuras de referência. Umas vezes é contida nos interstícios da alma, outras projecta-se nas explosões momentâneas com que festejo uma vitória decisiva ou um golo genial. A minha paixão clubista é leal, civilizada e contemporizadora. Amo o jogo, a técnica, a emoção na bancada, o ambiente que antecede a partida, as piadas e ditos jocosos proferidos, em jeito de troca de galhardetes, entre os adeptos, Mas, sobretudo, amo o clube. Apercebi-me aos 20 anos que esta paixão seria eterna, quando, nos reservados da Biblioteca Nacional de Lisboa, me deparei com um pequeno texto, escrito por Joaquim Vidal Pinheiro, capitão da equipa do Futebol Clube do Porto, morto na batalha de La Lys, em 1918. O texto, intitulado “O amor ao clube”, é uma reflexão sobre a “paixão clubística”, onde o tenente Vidal Pinheiro explana as quatro qualidades que, a seu ver, são indispensáveis a qualquer adepto: amar o clube, viver o clube, não calar as suas opiniões e não desrespeitar o adversário. Escreve ele: “O verdadeiro adepto não menoriza os rivais. Tem de se preocupar apenas com seu clube. A história e o passado dos outros só valorizam as nossas vitórias, porque assim percebemos as dificuldades que atravessamos e por esta forma reforçam a nossa identificação com aquele que amamos”.[1]

vidal pinheiro

Vidal Pinheiro

As palavras de Vidal Pinheiro parecem, hoje, descabidas, sobretudo se pensarmos que muitos dos que assumem a condição de adepto parecem mais empenhados em odiar os rivais do que perceber por que são deste ou daquele clube. Expressões do tipo, “sou do Porto e odeio lampiões” ou “sou do Benfica e não posso com lagartos e andrades” não compaginam com a minha maneira de ser adepto. Apoiar um clube e querer que esse clube ganhe aos adversários é uma coisa, desrespeitar os adeptos rivais é outra. Bem pior, a meu ver, sublinhe-se. Ser adepto do Futebol Clube do Porto, é muito mais do que esta linearidade. É conhecer a sua história e o significado das suas vitórias. Mas é, também, ser adepto do futebol e maravilhar-se com o ambiente caloroso do La Bombonera em dia de jogo entre o Boca Juniores e o River Plate e ficar arrepiado com os adeptos do Liverpool ao cantarem em uníssono o tema “ You’ll Never Walk Alone”. É admirar cada conquista do clube e falar do jogo que se passa dentro das quatro linhas, passando ao lado das polémicas que pairam nos bastidores. É gritar golo quando a bola entra e gritar quando a bola não entra, mas esteve quase a entrar. É reconhecer mérito ao adversário no momento da derrota e festejar, com alegria incontida, na hora da vitória. É, como dizia Vidal Pinheiro, “ser urbano e educado, não dar de barato a nossa paixão, nem conceder facilidades aos adversários; só assim poderemos dar valor às nossas vitórias”[2].

[1] Pinheiro, Joaquim Vidal, O amor ao clube, p. 2, Porto 1914.

[2] Idem, ibidem, p. 3.

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