O esfericocentrismo de Johan Cruyff

por David Guimarães*

 

cruyff

foto retirada da página facebook do jornal de Volkskrant

O inigualável mestre holandês (desaparecido ontem) é responsável pela implantação e transposição para o terreno de jogo da maior e mais importante revolução do futebol moderno, o famoso “futebol total”, ou, na denominação do seu inventor, o treinador holandês Rinus Michels… “futebol circular”. Nunca houve ninguém tão completo, versátil e ecléctico no fenómeno futebolístico como Cruyff, o verdadeiro ser “transdisciplinar” do jogo. Nas suas palavras: “Sou um ex-jogador, ex-dirigente, ex-treinador, ex-presidente honorário. Uma lista porreira que, mais uma vez, mostra que tudo chega a um fim.”.
Esta filosofia aprimorou as noções de jogo posicional, movimentação, desequilíbrios e pressão (em posse e na recuperação). As dinâmicas colectivas eram interligadas com noções individualizantes, num incremento de velocidade no momento de recepção e passe, ou na marcação/desmarcação. No Ajax onde se sagrou três vezes campeão europeu (1971 a 1973) e na selecção holandesa de 1974 (a celebérrima “laranja mecânica”) quando atingiu a final do Mundial da Alemanha, Cruyff foi a placa giratória deste estilo inédito, impulsionador de um dinamismo ritmado e solidificado em insistentes trocas posicionais desestabilizadoras. Este jogador era o garante de uma quantidade enorme de posse de bola, associando-lhe qualidade, critério e destino adequado. Monitorizava a perfeita relação entre a equipa e o esférico.
No jogo decisivo do Campeonato do Mundo na Alemanha Ocidental em 1974, onde a sua selecção foi derrotada por duas bolas a uma, o golo marcado pelos “cor-de-laranja” procede de uma das melhores jogadas de envolvimento de todos os tempos. No primeiro lance do desafio, logo após o pontapé de saída, os forasteiros trocam 16 passes, obrigando os adversários a baixarem o bloco, acantonando-se junto da sua área.  Com todos os jogadores de campo holandeses no miolo de terreno adversário, circulando a toda a largura e em constantes trocas posicionais, Cruyff (aos 46 segundos) recua e pede a bola. Ao 16º passe é o último homem da sua equipa… mas mesmo assim, arranca em direcção à baliza, ludibria três marcadores e sofre penalty, posteriormente convertido por Neeskens. Este golo não foi suficiente para levantar o troféu, visto que a Alemanha Ocidental conseguiu virar o resultado (2-1).
A sua filosofia marcou indelevelmente o jogo, sendo a “mater” geradora de outras concepções de futebol apoiado. Cruyff, que posteriormente brilhou no Barcelona (onde germinou a semente do Tiki Taka actual), levou consigo o conceito de controlo e circulação, que ainda hoje é imagem de marca dos “blaugrana” (preferia ser derrotado e jogar um futebol autoral que ficasse na história, do que vencer actuando monotonamente sem espectáculo).
Sendo o jogador mais elegante que existiu, conduzia senhorialmente a bola como que deslizando graciosa e imaculadamente sobre uma passadeira vermelha hollywoodesca. A jogada de golo supracitada desse Mundial perdido é exemplo da sua magnanimidade. Os colegas abriam alas ao futebolista Vitruviano e ao seu manifesto esfericocêntrico, onde a proporção é gizada pelo rolar harmonioso de uma bola.
* David Guimarães estudou História na Universidade do Porto. Lê, pensa e escreve sobre futebol, ultimamente também  no jornal Público. Grande amigo e seguidor atento de Leitura de Jogo, este é o seu primeiro (de muitos, espera-se) texto no blog. Tal como Cruyff na equipa principal do Ajax, David estreia-se neste team com um golo de bandeira.
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