As Memórias do Futebol

Alcino Pedrosa

“Vivo e respiro o futebol. Para mim, o futebol não é apenas um desporto, é um ideal e um modo de evocar a vida”.

Osvaldo Soriano, jornalista argentino (entrevistaao Canal 7, em 1990)

NickHornby, autor de “FeverPitch”, partindo do princípio que a sociedade “se reproduz a si mesmo em qualquer domínio social”, sustenta que o futebol é susceptível de “marcar a própria vida”. A ideia do jogo como referente da vida, defendida pelo autor inglês, devo confessar, agrada-me sobejamente, pela relação que o futebol tem com alguns momentos da minha existência. Acontecimentos, personagens e estórias do universo futebolístico assumem, nas minhas memórias, a função de signos, que remetem para algo que extrapola o âmbito estritamente desportivo e que, pela sua carga semântica, conferem a vários momentos da minha vida um conjunto de sentidos que de outra forma dificilmente poderiam existir.

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O futebol, metáfora da vida

Os mais cépticos (por alguma razão o são) questionarão sobre o significado das coincidências entre o futebol e a vida, porão em causa a sua utilidade ou muito simplesmente perguntarão “O que tenho eu a ver com isso? Eu até nem gosto de futebol”. Podemos viver desprezando o futebol, é certo, podemos simplesmente ser indiferentes ao desporto-rei, mas no limiar do abstraccionismo, surgem sempre novas interrogações, que evidenciam o papel que esta modalidade desempenha na nossa existência. Quem nunca se questionou, mesmo como simples exercício reflexivo, sobre as razões que levaram a que rapidamente o futebol se tornasse no desporto mais popular do planeta? Quem ousa negar o seu carácter envolvente, catalisador de ódios e paixões?

“O futebol – afirmou, um dia, Osvaldo Soriano (1990) – é uma parte da minha vida. Muitas das minhas memórias estão-lhe associadas, como a instalação da luz na aldeia de meu tio, em 1958, no dia da abertura do campeonato do mundo, ou a primeira paixão, na cancha do San Lorenzo, em 1960.”

Compreendo bem as palavras de Soriano. Acreditem ou não, nos primeiros dias da minha existência, já sentia de perto as vibrações do futebol. Questão de ADN, sem dúvida, mas, também, o resultado de um conjunto de circunstâncias que muitos imputam ao destino, outros, a uma série de coincidências, outros, ainda, a algumas das infinitas possibilidades da física quântica. Os meus pais conheceram-se na Juventude Operária Católica, no regresso de um jogo que opôs a selecção do Porto à selecção de Lisboa. Nasci na Rua Gomes Leal, a quinhentos metros do Estádio das Antas.Fui baptizado a 22 de Março, na Igreja do Bonfim, à mesma hora que o Futebol Clube do Porto se sagrava campeão nacional, depois de vencer, de modo sofrido, o Torreense por três a zero. Nesse dia, não existiu crença ou prática religiosa, que resistisse à fé e à angústia dos adeptos presentes na igreja, a começar pelo padre Júlio, que decidiu interromper a cerimónia para que, num velho Nordmende Tannhäuser-Stereo instalado na sacristia, se ouvisse o final do Benfica – CUF, que parecia não querer terminar.

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Rua Gomes Leal, onde nasceu o escriba destas linhas

Não sei qual a razão, mas algo muito forte, que faz parte da minha memória futebolística, emerge à tona quando me lembro de algumas datas significativas da minha vida. E a evocação pode não ter a ver com o meu clube de coração. Conclui a escola primária, em 1969, sem grandes recordações, mas sou capaz de recuperar, com detalhe, os dois golos que Cruyff marcou ao Benfica, em 19 de Fevereiro deste ano. Licenciei-me e entrei no mundo do trabalho, em 1982, mas quando trago à colação essa data, o que me vem primeiro à memória é o cidadão Joaquim Lucas Duro de Jesus, registado na história do futebol português como Quinito, a entrar, no dia 29 de Maio, no Jamor de smoking branco e laço preto para comandar o seu sedutor Sporting de Braga, na final da taça de Portugal. O Sporting Clube de Portugal ganhou por quatro a zero, mas nunca ninguém terá homenageado de forma tão bonita a prova rainha do futebol luso como Quinito, o mais romântico dos treinadores portugueses.

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Quinito, de fraque branco e laço a condizer

Perguntava-me, há dias, um amigo se nas linhas das minhas memórias não há lugar para momentos de desilusão. Certamente que há, até porque parte delas foram escritas ao longo de uma travessia do deserto, que durou 19 anos e só terminou em 1977. O mês de Setembro deste ano, de resto, é assinalado por dois factos marcantes: a minha entrada na Faculdade e a segunda jornada do campeonato nacional de futebol. No dia 10, o Porto jogou na Amoreira contra o Estoril. Assisti ao jogo, que terminou com a vitória dos canarinhos por dois a zero. Na memória, fixadas de modo indelével, ficaram as palavras de Pedroto, proferidas, no final do jogo, a escassos 5 metros do sítio onde me encontrava: “Não voltaremos a perder um jogo assim”. E se bem afirmou a ideia, melhor a concretizou, pois aquela viria a ser a única derrota sofrida pela equipa em todo o campeonato.Três dias depois, na Alemanha, a equipa empatava dois a dois com o Colónia, na 1ª eliminatória da Taça das Taças. Começava a forjar-se, naquele momento, o F.C.Porto europeu, que teria a sua consagração, primeiro em Viena, em 1987, com a vitória na Taça dos Campeões Europeus e, posteriormente, a 13 de Janeiro de 1988, no estádio das Antas, com a conquista da Supertaça europeia. Ah……já me esquecia de referir. Neste dia, apresentei a minha dissertação de mestrado.

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Os festejos da vitória (Antas, 13 de Janeiro de 1988)

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