Manifesto Futebológico

por David Guimarães

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Foto de Thierry Des Fontaines

  1. O futebol deve ser visto como algo instigante e germinador de um pensamento ponderado. Para isso, é necessário erradicar a noção de pequenez e boçalidade com que despudoradamente é tratado por muitos dos seus agentes. Esconjurando o efeito anestésico de distracção social, a emergência “tumultuosa” da reflexão surgirá, guiando-nos por um caminho consonante com a importância concreta e simbólica do desporto rei.
  2. Alicerçando-me no pensamento de Platão, afirmo que o “logos” futebolístico exige um equilíbrio constante entre o sensível e o inteligível, onde é indispensável uma convivência paixão/razão. Muitos comentadores da modalidade (de forma nefasta para o debate) antagonizam estes dois universos, fazendo emergir assim dois tipos de postura: seres clubistas trauliteiros e os que se mantêm numa confortável neutralidade. Uns destilam imponderação emocional, outros refugiam-se no embalo do politicamente correcto. Neste ponto é essencial uma terceira via, o surgimento dos harmoniosos não-alinhados e livres (que na comunicação futebolística estão ainda manietados). Replicando o que se pretende na acção do relvado, também os discursos sobre o jogo têm de integrar equivalentemente o amor à causa e racionalidade.
  3. Pensar o futebol segundo este enquadramento exige (para posterior diálogo) não apenas uma forma de expressão, o erigir de um estilo ou a adopção de uma estética caracterizadora. Intima algo para além disso, uma predisposição transfronteiriça. Reflectindo o “belo”, o futebol é justamente a “arte oitava”. Mas, ao contrário das sete que o antecedem, não o é de forma consciente. Sem dúvida contemplando, o futebol supera o fervor artístico. Enfim… alcançamos o conceito “jogo”, esse rio que transborda e humedece as margens.
  4. Nesse jogo temos a síntese da vida em movimento. O mundo num rectângulo relvado cujo coração é uma esfera pontapeada. Mesmo assim, o seu carácter ecléctico não impede uma gíria específica e rica que tem de ser respeitada e aplicada. Apenas é possível compreender o universo “dentro das quatro linhas” quando a terminologia técnico/táctica da modalidade é correctamente apreendida e utilizada. A “linguagem científica futebolística” necessita de tomar o lugar do não rigoroso e despropositado “jargão futebolês”. Como tal, determinados conceitos inerentes aos intervenientes terão de ser obrigatoriamente veiculados com rigor através dos meios de comunicação. Noções como “estrutura”, “sistema”, “modelo” (entre inúmeras outras) têm significância distinta e nunca deverão ser arbitrariamente aplicadas.
  5. Esse “cosmos” particular é necessário, mas não suficiente, para uma visão global do nosso “Planeta do Futebol”. Essa cientificidade deontológica é exígua para a pretensão robusta que a transdisciplinaridade proporciona. A aproximação, interacção e suplantação de distintas áreas do conhecimento é impreterível para que nasça e subsista a almejada Futebologia. A História, a Filosofia a Sociologia, a Antropologia serão fontes de auxílio, diferentes prismas que enriquecem e clarificam a percepção do desporto rei.
  6. Para não emergirem dúvidas, a pretensão não deverá ser nunca replicar um academismo de “vacas sagradas”, linguisticamente hermético e divinizador para com os seus “incontornáveis”. É necessário, sim, incorporar o nobre sentido de “estudo”, repercutindo a necessidade de problematização, aprofundamento e rigor em torno do fenómeno. Esta concepção e postura terá de desaguar numa comunicação (oral/escrita) rica e cuidada. Para respeitar e instigar os seus amantes à reflexão, urge estilhaçar o facilitismo minimalista, irreflectido, grosseiro e desprezível que enforma a multiplicidade dos discursos futebolísticos.

futebologia7. Este “Pensador de Rodin” está numa confortável indagação (inquietantemente estático) sobre a “bola de jogo”. É a representação perfeita do “Homo futebologicus”. Um ser que se equilibra, sustém e subsiste numa superfície de difícil domínio e estabilidade. Está em contacto com o seu mundo, mas olha em diante para a infinidade de possibilidades. Sente para entender e entende para sentir.

Fontaine

Foto de Thierry Des Fontaines

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