Do jogo enquanto medo de perder

           pep-guardiola-diego-simeone-atletico-de-madrid-barcelona-okdiariocom

 

                                                                                                         por João Nuno Coelho

 

Com a final da Liga dos Campeões à porta, um novo duelo entre o aristocrático Real Madrid e o guerreiro vizinho Atlético, volta à ordem do dia o debate suscitado pela apaixonante eliminatória da meia-final At. Madrid-Bayern  .O eterno debate “futebol ofensivo vs futebol defensivo” ou “jogar bem vs jogar mal”, ou ” jogo bonito vs jogo feio”.

Admito que em quase todos os jogos internacionais que não envolvem a minha equipa, dou por mim, involuntariamente, a torcer pela equipa que joga o futebol mais ofensivo, que envolva mais risco, que passe por impôr o dominio do jogo, assumi-lo, criar mais situações para marcar. Neste caso o Bayern. Foi sempre assim, é algo que não consigo controlar.

Portanto mesmo que admire muito a actual equipa do Atlético e o espírito guerreiro criado pelo Simeone, como adepto gosto mesmo é de equipas de ataque, de posse e circulação de bola, de risco assumido.

Mas, no futebol, como noutras actividades e vertentes da vida,  para mim não há nada pior do que o pensamento único, a forma “correcta” de fazer as coisas. Respeitar o jogo é respeitar as diferentes formas de jogar, a multiplicidade de meios, de caminhos e de estilos – e o seu confronto – para atingir o fim pretendido. Desde que respeitando as regras e a cultura desportiva. Porque antes de ser um espectáculo (onde o “joga bonito” é “a” maneira correcta de fazer as coisas) o futebol é um jogo, ou, se preferirmos, um desporto.

Quando os recursos disponíveis para duas equipas são muito díspares torna-se ainda menos razoável criticar quem joga de forma mais prática, mais estratégica, fazendo apelo a outras qualidades e armas que não as que proporcionam um melhor espectáculo.

No caso deste Atlético-Bayern (como no Benfica-Bayern, da eliminatória anterior, em que os encarnados também jogaram as duas mãos na “retranca”…) podemos ter quase a certeza que se os adversários dos alemães tivessem jogado olhos nos olhos teriam sido facilmente batidos.

Tudo isto perece-me inegável, mas não esgota o assunto. No caso do Atlético de Madrid, a contenção é mais do que uma estratégia, trata-se de uma filosofia de jogo – a do seu treinador. Duvido que, mesmo que quisesse, Simeone saiba jogar de outra forma, que possa colocar as suas equipas a praticar outro tipo de futebol (também por isso tem tantas dificuldades em ganhar aos “pequenos”).

Algo que se passa também cada vez mais com José Mourinho, que na sua carreira tem vindo a preferir o tal futebol de contenção, especulativo, apenas centrado no resultado. Mesmo quando não se pode queixar minimamente dos recursos à sua disposição.

Simeone como Mourinho têm claramente filosofias de jogo filhas do medo de perder. Para ganhar seguem um atalho: a fuga à derrota. Já Guardiola  mantém sempre a sua equipa na mesma estrada: jogar bem, considerando que quem o faz está mais perto de ganhar. Nenhuma das filosofias é intrinsecamente boa ou má, melhor ou pior. São diferentes, são dois caminhos para chegar ao mesmo objectivo: a vitória.

Mas se me perguntarem qual prefiro não tenho qualquer dúvida. Existindo uma certa paridade de recursos disponíveis, prefiro a de Guardiola. Em primeiro lugar, porque é mais espectacular, esteticamente mais apelativa. Em segundo lugar, e se calhar mais importante, porque reflecte e manifesta um atitude, uma postura, uma filosofia perante o jogo e a vida que me atrai muito mais, que me parece multo mais saudável e positiva: a de relativo desprendimento em relação ao sucesso e ao insucesso, quantas vezes uma oposição perene e fátua.

Só quem não tem ansiedade perante a derrota, perante o insucesso, só quem não tem medo de perder, de enfrentar e infelicidade que o desaire implica, joga como jogam as equipas de Guardiola. Encarando o risco com naturalidade, sabendo multo bem que ele faz parte do jogo, que a vitória e a derrota são duas faces da mesma moeda. Porque para Guardiola, alguém que, atenção!, é imensamente competitivo, a vitória e a derrota são menos importantes do que o jogo em si. E, logo, a derrota torna-se mais aceitável, mais suportável, mais digna, se jogarmos bem. Como aconteceu à Holanda de Cruyff no Mundial de 1974 ou ao Brasil de Telé Santana no Mundial de 1982 ou como já aconteceu diversas vezes a equipas de Guardiola, incluindo nesta meia-final da Champions.

Guardiola e o seu “pai espiritual” Cruyff expressam também assim o seu amor pelo jogo, assumindo-o como o valor mais alto. Já Simeone e Moutinho, amam multo o jogo, com certeza, mas são dominados pelo medo da derrota. Porque mais que o futebol amam o sucesso, ganhar, serem os primeiros.

Como disse antes, para mim nenhuma destas posições, per si, é melhor ou pior. Sei muito bem, no entanto, com a qual me identifico, a que mais aprecio. Qual a que penso corresponder a uma compreensão do jogo, do desporto,  mais profunda e completa.

Por isso, sempre que não houver elementos “emocionais” em jogo, irei continuar a preferir que ganhe quem menos medo tem de perder.

 

 

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Geral. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s