Futebol: Um património comum ameaçado

portugal

Adeptos portugueses cantam o hino antes do Portugal-Islândia

 

por David Guimarães

 

Todos os jogadores, mais vincadamente os grandes campeões, odeiam perder. Quando o insucesso acontece, é como um luto de “morte”, embora se fale apenas de uma “perda” desportiva. Sempre que defendem o seu país, a sua identidade nacional, a derrota ganha contornos dramáticos. Nas grandes competições internacionais, joga-se pela pátria, unindo-se um povo aos seus “ 11 embaixadores em campo”. O grande evento futebolístico propicia um elo único entre o “eu” e o “outro”, diluindo-se num “nós”. Cada jogo opõe duas equipas, “nós” contra “eles”. Os seleccionados são movidos pela inspiração e desejos dos seus milhões de concidadãos na procura de um final glorioso. De um vasto universo emerge um pequeno número de eleitos, “os melhores”, os “heróis”, que defendem a sua gente. Cada toque na bola é de uma responsabilidade tremenda, pois extravasa o espaço físico do estádio. Os atletas “enviados” e “ungidos” pelo povo espelham o país, são modelos, ídolos de juventude. Só uma grande conquista faz jus à história e cultura de uma nação, que é sempre tida como grandiosa e pujante. Assim se faz “existir” um país e se perpetua a sua identidade ancestral para um futuro inevitavelmente brilhante.

O futebol é uma realidade social propensa a uma imagética de guerra, coadjuvada por uma linguagem de terminologia belicista. Como em zonas de confronto é preciso “fazer qualquer tipo de sacrifício pelos colegas”, “morrer em campo”, “batalhar sem rendição”. O hino nacional, canção “combustível”, é entoado antes de cada duelo. O choro é muitas vezes inevitável nos jogadores, quando irmanados com  milhares de adeptos a cantar a plenos pulmões. Esta encenação permite uma vibração que transcende o indivíduo. Sente-se, num arrepio, o pulsar da Nação.

Começa a prova. Somos “nós” contra “eles”, numa batalha colectiva onde “esmagam” ou são “esmagados”, uma guerra onde “matam” ou são “mortos”. Não importando quão grande ou forte é o adversário, “lutarão” até à exaustão para o vencer.

iceland

A comunhão entre os indómitos islandeses e os seus adeptos. Durante o Euro 2016 não há de certeza  filas de trânsito  em Rekjavick pois a cidade deve estar deserta.

Este ano, os olhos e os corações do mundo do futebol estarão voltados para França, o foco será o Europeu, um período de grande festa internacional da modalidade. Deseja-se um tempo de celebração da competição leal e da convivência pacífica entre os povos. É uma oportunidade de revigorarmos os ideais humanistas de Pierre de Coubertin. Valores de paz e tolerância, de inclusão, de aceitação da diversidade. Pretende-se um evento que despreze todas as formas de preconceito e contribua para um saudável entendimento entre os seres humanos. Como é que conseguirá, então, o humanismo imperar através desta batalha de nações? Terá o desporto-rei esse poder?

O futebol tem servido de palco para actos agressivos que nada têm a ver com o espírito desportivo. Mas também não vou afinar pelo diapasão benévolo de que toda e qualquer actividade competitiva deve ser um “jogo para famílias”, espectáculo aprazível e imune a qualquer tipo de conflitos. Em determinados enquadramentos, a competição organizada pode aproximar-se desta visão idílica, onde a tensão está ausente. Mas é também inegável que enquadra no seu seio discordâncias imemoriais de vária ordem, laborais, políticas, económicas, sociais, religiosas, nacionais, regionais, separatistas, em suma, este fenómeno pode ser considerado como um aglutinador da pluralidade de representações da vivência humana. Não excluindo este lado de confrontação, temos de perceber que o limite é a violência física. Sem entrar num espaço de sensibilidades individuais, posso considerar (alargando a tolerância) as trocas de insultos, picardias e as tentativas de humilhação verbal entre adeptos, aceitáveis como normais e circunscritas aos seus trâmites. Seria irrealista escamotear que muitas das pessoas apaixonadas pelas várias modalidades sentem ódio, ou ódios exacerbados, por jogadores, instituições e dirigentes rivais. No entanto, essa repulsa por alguns antagonistas e a resolução dos contenciosos tem de ser delegada para os jogadores e treinadores, a verdadeira “batalha” é limitada pelas “quatro linhas”. No fundo, trata-se de circunscrever a violência para dentro do jogo (metamorfoseada em abnegação, empenho e motivação aguerrida). Esta é, aliás, uma marca indelével dos estados civilizados, onde o “monopólio da violência” é delegado e gerido pelo estado soberano. Estes são, necessariamente, os limites deste desporto, que nunca deverá resvalar para a confrontação física extra jogo. Nesses casos já entramos no campo do subterfúgio, onde a modalidade se transforma numa mentirosa razão para pulsões que moralmente não têm lugar na comunidade civilizada.

O futebol, como manifestação paradigmática do modo de vida ocidental, é alvo cada vez mais apetecível do terrorismo (como provam os atentados bombistas nas imediações do Stade de France). Esta acção concertada, juntamente com outras zonas de matança, assombrou de novo as ruas de Paris, depois da ofensiva perpetrada contra o jornal satírico francês Charlie Hebdo e seus cartunistas. Os verdugos do Estado Islâmico ameaçaram mesmo atacar o Europeu e todas as medidas de segurança não serão demais, esperando-se que até ao final da competição nenhuma destas ameaças se concretize..

Para estes fanáticos, mais do que sacrificial, a própria morte (ceifando outras vivas) é a estrada para a suprema dignidade (a entrada no paraíso como mártir). Este pressuposto nasce de uma concepção que, apesar de mascarada como a vontade divina, não é mais do que uma sobreposição do Homem a Deus. Este hediondo terrorismo fundamentalista é a negação da perfeição divina, pois são os próprios carrascos que “encarnam” o seu criador, que deveria ser inacessível e não reproduzível, mas que se corporiza, através de uma representação terrena e abjecta da sua suposta vontade.

O ataque ao jornal satírico veio proporcionar uma acesa discussão sobre liberdade de expressão (sua importância, limites e potencial efeito contraproducente) para a almejada laicidade europeia. Julgo que devemos categorizar a liberdade de nos exprimirmos como uma “dádiva” bondosa e uma vontade indómita a que estamos eternamente “condenados”. É imperativo definir a possibilidade de expressão livre como um “bem”, uma predisposição para adquirirmos competências enquanto seres sociáveis que somos. No entanto, é errado quando a liberdade de expressão nos leva a uma mundividência que estabelece uma “virtude” única e esconjuradora do pluralismo e eclectismo das “virtudes”.Seguindo este raciocínio a sátira mordaz dos cartunistas deve ser louvada, porque não nos direcciona para um “bem” reducionista, mas sim para o reconhecimento da diversidade de pensamento, pois tudo é humoristicamente criticado e posto em causa.

Pensando num universo limitado a vinte e dois jogadores em campo, jogando onze elementos de cada lado, surge a percepção do desgaste do axioma: “a minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro”, substituído com propriedade por: “a nossa liberdade nasce quando se inicia a liberdade do outro”. A liberdade não se auto sustenta nem se hétero limita, mas necessita de terceiros para se consumar. Tal como a corrida de um craque fantasista, o cidadão em estado laico tem de estar inserido numa dinâmica colectiva, ou seja, bem integrado nos vários “modelos tácticos existentes”, nunca para aprisionar, mas sim para integrar convenientemente o movimento. Nesta lógica, é importante não atribuirmos superioridade a determinado estilo. Uma equipa que pratique um jogo com predominância na posse de bola é usualmente catalogada como sendo superior a outra que empreenda uma arrumação táctica defensiva, procurando uma contra-estratégia que condicione o adversário. Portanto, não deve existir somente uma “moral” certa, mas sim várias fórmulas estilisticamente legítimas de viver (em campo e fora dele). No entanto, não deveremos cair no extremo da idolatrização da diferença, tão grata às nossas sociedades laicas, caídas muitas vezes na desgraça do relativismo absoluto. Na vida, como no futebol, devemos procurar o poder complementar do único, sem lhe retirar identidade, mas antes, colocando-o em diálogo.

Uma equipa não será uma civilização com sociedades, mas sim uma sociedade com indivíduos de proveniências multiculturais, num circuito global de interligações que estabeleça um equilíbrio e uma harmonia. Não quero com este raciocínio negar a existência de génios criativos, que são claramente mais dotados e capazes do que os seus pares, tendo, por isso, um destaque maior dentro da colectividade. Mesmo monopolizando atenções, a estrela de uma equipa não deve ser imbuída pela egomania (como um fundamentalista), sonegando ao companheiro a possibilidade de existir. Para além do criticismo aos colegas, o atleta terá de se colocar em causa, é imperativo que tenha consciência que não é imune à falha e que se encontra muito perto do “pecado” e muito longe de “Deus”. Como os cartunistas, os jogadores devem evitar a idolatria e a sacralização (de si próprios ou dos companheiros). Ser livres em equipa, rir uns para os outros e para o jogo, fazendo rir quem o vê. Nem Messi ou Ronaldo podem viver isolados. Devemos, todos, procurar coabitar com o outro, nosso “irmão”. Apenas Deus, “lá no alto”, vive sozinho.

Como se pode, então, combater este fanatismo religioso trans-étnico e o seu potencial ideológico agregador? Com um fenómeno trans-étnico mais poderoso, o futebol. Mais concretamente, na sua vertente organizada (com as suas regras e os seus códigos éticos e de conduta).

Nada estimula de forma tão salutar os instintos mais primitivos do ser humano nem desperta tão plenamente a sua essência enquanto indivíduo. O primitivismo não é degolar (para isso necessitamos de um enfoque racional malévolo), mas sim a propensão para acções tão simples como correr, saltar ou acertar numa bola. A prática desportiva nasce de necessidades fundamentais que todos sentimos: conviver, criar laços, competir, acarinhar uma identidade comum. Não são “francesas” nem “iraquianas”, gera-se uma união em torno do jogo. Apesar do seu belicismo tão vincado e directo (através do discurso ou acção), o verdadeiro espírito desportivo suaviza e dimensiona equilibradamente as diferenças e os antagonismos que lhe são inerentes. Revelando o melhor dos sentimentos e da natureza humana, permite ultrapassar barreiras de “raça”, de religião, de nacionalidade. As manifestações desportivas são semelhantes às actividades lúdicas da criança que um dia todos fomos. O prazer de movimentar o corpo dá-nos uma consciência de liberdade só experimentada através da mais simples e pura expressão do desporto. Todos os mamíferos brincam, mas só a nossa espécie conta os pontos.

 

irish fans

No Europeu dos adeptos mais simpáticos e originais, o título vai para a ilha mais pequena do Reino Unido!

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Geral. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s