Ederzito ou a mão esquerda do herói do impossível

 por João Tiago Lima

Eder

«Sabes qual é o nome verdadeiro do Eder?» – perguntou-me o miúdo que, no alto dos seus dez anos, mais uma vez me demolia com o seu saber enciclopédico acerca das coisas mais improváveis do universo futebolístico . Fazia lá eu ideia de como se chamava o longílineo avançado centro que começava a despontar na equipa principal da Briosa. «Chama-se … Ederzito! Não é fantástico?» exclamava ele empunhando triunfalmente os Cadernos da Bola que, por esses dias, devorávamos os dois em busca das novidades de Agosto para a época que aí vinha. «Ederzito?! Realmente é um nome extraordinário! Era muito mais lógico que esse fosse um diminutivo de Eder…» pensei eu, entre o incrédulo e o divertido.

Avançamos duas temporadas para aterrar no verão de 2010. A Académica começa o campeonato de forma excelente, com uma vitória na Luz frente ao campeão Benfica de Jorge Jesus. De férias na Figueira, (tele-)vimos o jogo num café cheio de encarnados. O tão improvável como belo golo de Lionel já depois da hora festejámo-lo exuberantemente – e tenho de o admitir com pouco fair-play –  em pleno território hostil. Eder não fez parte dos convocados por Jorge Costa, nosso treinador, para o primeiro compromisso oficial da época. Não seria assim quando, na sexta-feira seguinte seguinte, rumámos ao Calhabé cheios de fé. A Académica recebia o Olhanense e, em caso de vitória, isolar-se-ia no primeiro lugar da tabela. Jogo difícil, frente a algarvios muitíssimo bem fechados na sua defesa. O golo acabou por aparecer perto do fim, em oportuno cabeceamento do médio Diogo Gomes, numa altura em que Eder já tinha entrado em jogo para aumentar o nosso poder de fogo. A substituição surtira efeito, pelo menos indirectamente. Bastava segurar o resultado e a liderança seria nossa. Já me imaginava a festejar com uma mariscada pela noite fora na  Figueira quando, na sequência de uma bola pontapeada para a nossa área, o árbitro marca penalty para os algarvios. A primeira reacção foi, como sempre, de indignada fúria. «Penalty? Nunca na vida! É um escândalo! Um roubo! Sempre contra nós, estes filhos da puta!» O jogo termina logo a seguir e quando nos dirigimos para o carro passamos por um televisor e o alvo da nossa raiva muda de protagonista. A culpa, afinal, é do … Eder! Embora ligeiramente carregado por um adversário, foi ele quem abriu os braços, naquele estilo desengonçado que ainda hoje é o seu, e o juiz da partida não podia, de facto, fazer outra coisa. Nessa noite nem a sua inexperiência o desculpou.

Eis um resumo desse jogo que acabou mal para o Eder e … para mim!

http://livetv107.net/en/showvideo/33891_academica_olhanense/

O Eder, que chegara aos vinte anos à Académica vindo do Tourizense (descoberto pelo técnico deste clube que era, imaginem, o Drulovic!), tinha começado a jogar no Adémia, clube de bairro dos arredores de Coimbra e já em 2010 era sem dúvida um caso bem sucedido de integração social, depois de um início de vida extremamente difícil. A sua progressão foi notória e, na época seguinte, fez parte de uma das melhores equipas da Académica de sempre e que, já sem o guineense no plantel (em virtude de uma estória cujos contornos nunca cheguei a perceber inteiramente, Eder abandona a Académica a meio do campeonato e assinará depois pelo Braga), conquistará a Taça na memorável final frente ao Sporting. Acompanhei com muito interesse o percurso de Eder no Braga – recordo especialmente o jogão que fez em Old Trafford – e, por isso, não me opus à sua convocatória para a selecção que, de resto, para mim só pecou por tardia. Todos os jogadores da Briosa, do meu ponto de vista, merecem ser convocados. Todos? Bem, quase todos. Alguns dos que nos enviaram para a Segunda este ano ainda nem os posso ver à frente! Claro que nunca exigi a titularidade de Eder no Euro, mas tinha a secreta esperança que ele pudesse vir a ser útil.

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Por isso, na final de domingo passado, exultei quando me dou conta que o substituto do grandíssimo mas esgotado Renato era, não o André Gomes ou o Danilo (como teria sido lógico caso o engenheiro fosse um treinador medroso – o que é, sabemo-lo agora,  falso! –, mas, sim, … o Ederzito! «Vamos finalmente esticar o jogo!» – gritei.  Tal como berrei quando houve um livre contra nós: «Eder! Sai da área! Lembra-te do jogo contra o Olhanense! Não abras os braços!» Ele não me ouviu, mas felizmente só jogou com a mão na bola perto da baliza francesa. O árbitro trocou os olhos e, por sorte, o  tiro do Raphael esbarrou na trave. Imaginem o que diriam os franceses se a hora da glória viesse adiantada uns minutos. Não veio. Chegou logo depois. Um tiro à Eusébio. Magia pura. O drama que nenhum Shakespeare ousaria escrever. E, por fim, após os festejos, a luva que sai de dentro da meia. Uma bofetada branca para os críticos. Para mim, não. Sei do que a mão esquerda de Eder é capaz há muito tempo num campo de futebol. Pelo menos desde aquele fatídico último minuto frente ao Olhanense. Hoje tudo isso nada ou pouco vale. «Somos Campeões da Europa, caralho!» E o golo foi de quem? Eder! Mil vezes obrigado, herói do impossível!

 

 

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