O ex-futuro craque estudantil

 

sampaio da nóvoa
Os dois candidatos “aquecem” antes do jogo começar… De pé, à esquerda, o ex-jogador da Académica de Coimbra que terá passado “ao lado de uma grande carreira”, António Sampaio da Nóvoa. À direita, já sentado, o adepto arsenalista, Marcelo Rebelo de Sousa. O debate foi arbitrado por Clara de Sousa, cuja filiação clubística não foi revelada.

                                                                                                                        por João Tiago Lima

Na biografia oficial do candidato António Sampaio da Nóvoa, lê-se, a dado passo, o seguinte: «Passou a infância e a juventude com uma bola nos pés. Com os irmãos, os primos, os amigos, joga futebol, lê livros e demonstra uma habilidade particular para os números. É convidado por um olheiro da Académica a fazer testes para a equipa de futebol e chega à Universidade de Coimbra em 1971, com 16 anos, um ordenado de Juvenil e uma matrícula em Matemática.Em Coimbra, vive na República 5 de Outubro, uma residência mista e fortemente politizada. Poucas semanas depois de chegar, António Sampaio da Nóvoa já é delegado da associação de estudantes e partilha o tempo entre o futebol da Académica e os palcos do Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC). No teatro e nos cafés de Coimbra, António Sampaio da Nóvoa ensaia a intervenção. As leituras, as tertúlias, um debate constante pelo futuro de Portugal. É então que, apesar do convite para passar à equipa de futebol Sénior, deixa os relvados de Coimbra trocando-os pela Escola de Teatro do Conservatório Nacional e regressa a Lisboa, com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian.» (cf. http://www.sampaiodanovoa.pt/biogra…)

O resto da vida do mais marcante reitor das universidades portuguesas das últimas décadas conhece-se bem e, do meu ponto de vista pessoal, recomenda-o vivamente para a Presidência da República. Se dúvidas ainda tivesse, o seu desempenho e sobretudo a fraquíssima e crispada prestação de Marcelo Rebelo de Sousa no debate entre ambos, dissiparam-nas por completo. Mesmo assim, estou convencido que Marcelo ganhará as eleições. À primeira volta? Penso que sim, mas uma segunda ronda entre os dois únicos verdadeiros candidatos seria sempre bastante interessante. Por outro lado, estou de acordo com a ideia defendida por muita gente que, pelo menos num primeiro mandato, Marcelo a Presidente será o que mais convirá ao governo de António Costa (o que não significa necessariamente que este assim governe melhor…).

Dito isto, volto àquela parte da vida de Sampaio da Nóvoa em que trocou a Briosa pelo teatro, decisão da qual, ainda hoje, ele mesmo não parece estar certo de ter sido a mais correcta. Tenho sentimentos mistos em relação ao caso. Quem me conhece sabe que eu daria tudo (ou quase…) para ter jogado futebol na Académica. O meu sonho de vida era (e talvez continue a ser) ganhar a Champions jogando pela minha equipa e, se atendermos ao facto de que vencemos em Coimbra o Atlético Madrid por 2-0 e de que, pouco tempo depois, os “colchoneros” – para desgosto do meu Amigo Antonio Sáez – perderam por um triz na célebre final para o Real em Lisboa (Maio de 2014), convir-se-á que existem devaneios mais impossíveis do que este. Por isso, alguém recusar um contrato para jogar na equipa principal da Académica é, para mim, extravagância incompreensível, senão mesmo “despesismo” de imperdível oportunidade.Mas posso ver a questão de outra perspectiva. Sampaio da Nóvoa, apesar do talento futebolístico que não poderia deixar de exibir (este video https://www.facebook.com/sampaiodan… demonstra que, ainda hoje, o candidato está longe de ser um “tosco”), não se acharia suficientemente bom para jogar na Briosa. Ou seja, pôs a equipa acima dos seus interesses pessoais. Se assim foi, a história acabou por não lhe vir a dar inteira razão. A verdade é que a Académica talvez se tenha ressentido da ausência do futuro candidato presidencial e, desde dessa altura até hoje (com a excepção da esplendorosa vitória no Jamor em 2012), nunca mais terá atingido o nível que nos anos Sessenta alcançara. Caso a decisão do jovem estudante fosse no sentido oposto, o destino futebolístico da Briosa teria sido outro? Nunca o poderei saber. Mas, se Sampaio da Nóvoa (inesperadamente?) vier a ganhar as eleições e, sobretudo, se conseguir ser o óptimo Presidente da República que parece prometer, terá valido a pena. Se não, nunca lho perdoarei.

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A Rua José Joaquim de Moura, o centro do mundo

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António Berni, “New Chicago Athletic Club”, 1937, MoMA

 

por António Alfarrobinha

 

Naquele tempo, em Faro nos anos de 1960, a Rua José Joaquim de Moura para os lados do Estádio de S. Luís era o centro do mundo. Ou melhor, a José Joaquim de Moura, que era a rua do meio, juntamente com a rua de baixo e a rua de cima. Jogava-se à bola dia sim e dia sim, no género de mudar aos dez e acabar aos vinte. O palco era um terreno de terra batida que nós pomposamente chamávamos de Campo das Oliveiras por onde hoje passa uma avenida larga com o nome de um farense ilustre. Nas jogatanas sem hora marcada brilhava o Quim, que era o melhor de todos nós e por isso jogava em qualquer posição. Também ganhava sempre no berlinde, nas caricas e no jogo da porca ou o que quer que a gente inventasse e por isso as miúdas lá da rua olhavam mais para ele do que para os outros. O Batão brilhava nos juvenis do Louletano e jogava a defesa central. Nos jogos “internacionais” ali para a Penha, o Vale da Amoreira ou o Bom João éramos reforçados com o Chico da rua de baixo, o nosso rato atómico que era um espectáculo pelo lado esquerdo. Na outra ponta jogava o meu irmão João, mais ao jeito raçudo. Para a baliza também ia da rua de baixo o Arquinho. Às vezes ele distraía-se muito e o Batão gritava-lhe zangado para sair à bola. O Batão era craque e tinha grandes responsabilidades na organização da defesa. E havia os outros que faziam uma equipa completa, é claro. O modelo de jogo estava assimilado por todos, atacava-se quando tínhamos a bola e defendia-se quando a perdíamos. Nesse tempo o Mestre da Táctica ainda nem debutava nos juniores do Sporting. Com os do Bom João jogava-se no Campo dos Marinheiros, perto do Liceu quase a meio caminho e era considerado um terreno neutro. Para nós era como jogar no Jamor.

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Alba Cavalcanti, “Futebol de Rua”

 

Quinta-feira à noite era feriado. Logo a seguir ao jantar corríamos para o S. Luís pois realizava-se o “treino de conjunto” do Farense. Ao domingo quando havia jogo a miudagem ficava pertinho da porta lateral do Estádio à espera de conseguir boleia para entrar sem pagar o bilhete. “Leve-me consigo”, era a senha. O porteiro que arredondava as finanças com aquele gancho fingia-se irritado e afastava-nos dois ou três metros para mais longe. Entrávamos solenes como se fosse um templo e os nossos heróis já faziam o aquecimento. O Reina, o Torpes, o Manhita, o Calotas, o Barão. Todos grandes jogadores. Se a rua do meio era o centro do mundo, o futebol era o nosso maior interesse. À conta disso havia puxões de orelhas por se chegar a casa fora de horas com os joelhos esfolados ou as belas sapatilhas Sanjo rasgadas. Era preocupante quando se chegava com um Medíocre num exercício de avaliação. Aí havia o risco de suspensão desportiva por uns bons quinze dias, o pior dos castigos. Nunca me esquecerei daqueles jogos em que se mudava aos dez e acabava aos vinte. Foi nesse tempo num terreno empoeirado, cheio de pedras e com oliveiras à volta, que forjei muito da minha vida na luta titânica e interminável por uma bola na imensa fraternidade de um jogo de futebol!

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Carta aberta a Tonel

 por João Tiago Lima

 

 

Caro António Leonel:

Desculpe-me tratá-lo desta forma mas não o conheço pessoalmente. E, no entanto, acredite que sou seu Amigo há muitos anos. Sou-o, de certo modo, de todos os futebolistas que passam pela Briosa. Até do João Tomás a quem os adeptos da Académica nunca perdoaram ter ido atrás dos seus sonhos de menino.

Ouvi falar de si pela primeira vez em Novembro de 2000 por intermédio de uns fanáticos que foram até Espinho, sua terra natal (julgo), ver jogar a “nossa” Académica. Contaram-me que tinham falado com o seu Pai que estaria algo desconfiado acerca da sua vinda para Coimbra. E disseram, tentando vencer a resistência paterna: «Olhe, o Fernando Couto também passou por lá e tornou-se o jogador que é!» E o Tónel (o acento tem por uma vez razão de ser, pois os preguiçosos comentadores só deixaram de lhe chamar Tunel quando você rumou a Alvalade…) veio. Estreou-se a 7 de Janeiro de 2001 no Calhabé, num jogo que viria a ser fatídico para o futuro próximo do grande Pedro Roma na Briosa. A situação da equipa na Liga de Honra era aflitiva mas as coisas compuseram-se e, graças também ao seu importantíssimo contributo, lá nos salvámos de uma impensável mas bastante provável descida ao terceiro escalão.

Academica tonel

Uma bela equipa da Briosa antes do jogo da subida frente à Naval. Em cima, da esquerda para a direita: Dário, Luís Cláudio, Dyduch, Kibuey, Tonel e Márcio Santos. Em baixo: Lucas, Tó Sá, Vital, Pedro Hipólito e Alhandra. Jogaram também neste jogo decisivo Paulo Adriano, João Campos e guarda-redes suplente Valente  FOTO PAULO NOVAIS/LUSA

 

E o Tonel continuou por Coimbra. Treinava a equipe João Alves e a época seguinte foi memorável. Com um plantel valioso (mas muito reduzido), fizemos uma campanha espantosa. Para tanto muito contribuiu a férrea dupla de centrais, constituída por si e pelo magnifique Dyduch. No miolo a liderança segura de Miguel Rocha, a classe de Paulo Adriano (para mim, o Pedro Barbosa sempre foi o “Paulo Adriano do Sporting”!), o pé esquerdo mágico do Alhandra e a garra polivalente do saudoso Lucas faziam milagres para municiar a dupla de goleadores (35 dos 68 tentos no campenato tiveram a assinatura  deles): o insaciável Kibuey e, claro, o genial Dário Alberto de Jesus Monteiro, ídolo absoluto dos meus dois filhos.

A caminhada foi duríssima, sobretudo quando o Tonel viu dois amarelos numa difícil vitória que alcançámos em casa contra os tigres espinhenses. Ficou de fora, por isso, na débacle de Chaves onde sofremos talvez a maior humilhação da nossa história futebolística. Era urgente reagir a tão penoso e surpreendente contratempo.

Na jornada seguinte, recebíamos no Calhabé o Desportivo das Aves num jogo absolutamente decisivo para nós, mas que para os visitantes pouco ou nada importava. Decidi, como tantas vezes nessa época, arrancar de Évora para Coimbra com os meus filhos invocando saudades da família (que habitualmente coincidiam – e, admito, ainda coincidem – com os jogos em casa da Académica) para mais um fim de semana junto ao Mondego. Confesso que, ao chegar ao Estádio, temi pela reacção dos nem sempre justos adeptos aos nossos “craques”. Talvez estivéssemos uma vez mais à beira de morrer na praia. Ainda por cima contra aquelas “aves agoirentas”. O velhinho “Municipal” estava em obras (Euro 2004) e, certamente por razões de segurança, foi decidido abrir aos sócios apenas a antiga central coberta (do lado poente) pelo que nos fomos sentando aí com notórias dificuldades de espaço. “Vai faltar apoio do lado de lá”, pensei.  Quando os jogadores entraram em campo, a bancada levantou-se num pulo e desatou a aplaudi-los durante cerca de cinco minutos. Contive com dificuldade as lágrimas. Os meus filhos garantem que não contive coisa nenhuma. O jogo dificílimo (equipa cansada, avenses duros como sempre e dessa vez estranhamente ainda mais “motivados”, arbitragem inconcebível) foi ganho com um golo solitário no último minuto. Livre na direita apontado pelo pé esquerdo do Alhandra e entrada de rompante de cabeça do Dyduch ao primeiro poste. Algumas semanas depois vencemos na derradeira jornada, desta vez já com o estádio repleto daqueles que só aparecem nos “previsiveis grandes momentos”, a Naval (golos de Kibuey e Dário, claro) alcançando a almejada promoção à 1ª Liga. Mas, para mim, a (última, em todos os sentidos, porque à segunda nunca mais iremos voltar!) subida já estava assegurada naquele vibrante aplauso, após o massacre de Chaves. Raramente senti adeptos e jogadores tão próximos como naqueles momentos.

Nas duas épocas seguintes, o Tonel foi titularíssimo na Académica e depois foi à sua vida. Fez bem, claro. Uma temporada no Funchal e, em seguida, várias épocas num Sporting demasiadamente em crise para que você pudesse brilhar como merecia. Por isso, partiu para um grande do futebol europeu e fez nome no Dínamo de Zagreb. Voltou para casa no ano passado e segui de longe (mas com interesse) a bela campanha do durante muitas semanas invicto Feirense, onde jogou ao lado de um outro estudante, o Cris. Foi com surpresa, mas com agrado, que li que tinha aceite o desafio de Sá Pinto para mais uma aventura no Restelo. E que bela aventura tem sido esta!

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Tonel tem sido fundamental na bela carreira do Belenenses de Ricardo Sá Pinto (ASF/Alexandre Pona)

Como deve calcular, o meu fim de semana futebolístico terminou de uma forma belamente trágica com a anulação em Coimbra do espantoso segundo golo de Gonçalo Paciência ao Arouca. Nada mais me interessa para além da Académica, embora torça pelos nossos quando envergam camisolas diferentes e não nos defrontam. Por isso, ontem segui pela TV o clássico lisboeta em Alvalade. No início, estava dividido entre si e o Adrien. Mas, como este saiu e o Sá Pintou fez entrar o Carlos Martins, acompanhei os últimos momentos do duelo, “puxando” pelo Belém. Até que aconteceu o lance do penalty. Indiscutível, mas dolorosamente penalizador para si. Eis a sua visão do que se passou em declarações ao jornal “A Bola” desta manhã: «Foi tudo muito rápido. Já estava em dificuldades físicas, sofri um toque, penso que do Slimani, quando saltei e a bola bateu na mão. Não tive intenção. O lance castiga-me um pouco, mas faz parte…».

Está tudo dito, meu caro António Leonel. Parece que uns papagaios televisivos vomitaram uns disparates depois do jogo. Vozes de asno não chegam a lado de nenhum. Ou, pelo menos, não deviam. Assunto encerrado.

O que é mesmo preciso é ganhar ao Desportivo das Aves. O meu “Aves” é na Luz e talvez aí o liner consiga acompanhar a velocidade dos tiros do Gonçalo. O seu “Aves” é no Restelo onde o meu Amigo receberá o Vitória sadino. Tenho a certeza de que os excelentes adeptos do Belenenses o receberão com uma merecida e sentida salva de palmas.

 

 

 

Receba um abraço do

João Tiago,

incurável adepto da nossa Briosa.

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MÉXICO 1986, A MAGIA DO 10 (EVOCANDO O 55ºANIVERSÁRIO DE MARADONA)*

por Alcino Pedrosa

 

Na parede de um bar em Madrid um cartaz avisa: “Proibido cantar”. Na parede de aeroporto do Rio de Janeiro um aviso informa: “É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagens.” Ou seja: ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca”.

Eduardo Galeano

 

Não consigo com precisão explicar o motivo, mas a primeira que vez que li esta frase de Galeano, lembrei-me de Maradona. Talvez porque o número dez da selecção argentina seja um cultor da liberdade e não goste de se ver preso a amarras. Talvez pela sua paixão pelo futebol, sobre a qual se cantam inúmeras poesias e canções. Talvez, pelo sentido utópico que está subjacente à sua maneira de viver o futebol. Um sentido utópico que não permite grandes aproximações: se damos dez passos em direcção à sua utopia – disse um dia Paco Maturana, treinador da selecção colombiana, entre 1990 e 1994 – ela foge outros tantos em sentido oposto. No entanto, é esse sentido utópico que permite que os seus passos sejam dados, que tenham continuidade, que jamais morram.

maradona el mago

Maradona é uma espécie de Merlin dos tempos modernos e das gestas futebolísticas, capaz de ressurgir, por mais que pareça derrotado. Tal como o mago da corte do rei Artur, o astro argentino viveu boa parte dos dramas reservados aos homens e renasceu sempre, pleno de engenho e magia. Drogas, problemas de coração, destemperos, como aconteceu a muitos outros, marcaram a vida do futebolista argentino. Mas o que o tornou diferente da maioria dos outros foi, sem dúvida, a sua maneira de encarar o mundo. No rosto e na vida Maradona tem estampado o riso da criança que joga à bola, o olhar do alquimista que descobriu a pedra filosofal, mas também a figura austera de quem sabe que pode falar o que pensa, chocar e depois driblar as consequências dos seus actos.

Es un enfermo, ouviu da Frente Atlético (claque do Atlético de Madrid), quando Goikotxea o lesionou gravemente, em Setembro de 1983, em partida contra o Athletic de Bilbao. Está acabado», escreveram alguns jornalistas brasileiros, que nunca digeriram bem que El Pibe tivesse ousado desafiar Pelé como o melhor de sempre. Mas Maradona reapareceu, curiosamente e por paradoxo da história (a história é fértil neste tipo de situações) no México, que anos antes glorificara o jogador brasileiro. No mundial de 1986, Diego escreveu uma das mais belas páginas de sua história. El mesías – assim lhe chamou Galeano – convocado para redimir la maldición histórica de los italianos del sur sería, también, el vengador de la derrota argentina en la guerra de las Malvinas, mediante un gol tramposo y otro gol fabuloso, que dejó a los ingleses girando como trompos durante algunos años (El Fútbol a sol y sombra).

Ao minuto cinquenta e cinco, Maradona recupera a bola no meio campo da Argentina. O resto já todos conhecemos, mas não será de mais recordar, roubando as palavras ao escritor argentino Eduardo Sacheri: Arranca desde el medio, desde su campo, para que no queden dudas de que lo que está por hacer no lo ha hecho nadie. Y aunque va de azul, va con la bandera. La lleva en una mano, aunque nadie la vea. Empieza a desparramarlos para siempre. Y los va liquidando uno por uno, moviéndose al calor de una música que ellos, pobres giles, no entienden. No sienten la música, pero sí sienten un vago escozor, algo que les dice que se les viene la noche. Y el tipo sigue adelante (Me van tener que disculpar).

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Gol – gritou – o locutor uruguaio Victor Hugo Morales – Goooool! ¡Gool! ¡quiero llorar! ¡Dios Santo! ¡viva el fútbol! ¡Golazo! ¡Diegol! ¡Maradona! Es para llorar, perdónenme. Maradona, en recorrida memorable, en la jugada de todos los tiempos. Barrilete cósmico, ¿de qué planeta viniste para dejar en el camino a tanto inglés? Para que el país sea un puño apretado gritando por Argentina. Argentina 2, Inglaterra 0. Diegol, Diegol, Diego Armando Maradona. Gracias Dios por el fútbol, por Maradona, por estas lágrimas, por este Argentina 2 Inglaterra 0.

O futebol tem momentos que são exclusivamente poéticos. Marcar um golo, conduzindo a bola desde o meio campo pode ser um desses momentos. Não é por acaso que todo o jogador sonha marcar um golo assim. Se dentro do que pode ser realizável pelo génio humano nos é permitido pensar em algo sublime, uma jogada como a que Maradona executou, em 22 de Junho de 1986, exprime este sonho. Dificilmente, todavia, se poderá repetir, com toda a envolvente e o significado que revestiram aquele golo.

A vida do mago argentino foi muito para além deste golo. Com momentos altos e baixos, renascendo sempre, não com o mesmo fulgor, mas sempre de modo diferente. Como, de resto, sucedeu com Merlin, que não raras vezes se deixou enganar pelo sentimento, colocando de lado a razão (como quando se apaixonou por Morgana e lhe ensinou a sua arte). Estas vicissitudes tornaram-no, no entanto, enigmático e carismático ao ponto de, hoje, quando se fala em mago, vir logo à cabeça o nome de Merlin. O mesmo acontece com Maradona, o mago e prestigiador que um dia iludiu um árbitro, conseguindo transformar uma mão num imenso coração (poema popular argentino).

 

* Maradona completa hoje 55 anos. Um número que para El Pibe tem algo de mágico. Festejou o 55º golo pelos Los Cebollitas ao 55º minuto, marcou à Inglaterra, em 1986, aos 55 minutos, depois de percorrer 55 metros (há quem diga 56) com a bola colada aos pés. Há seis meses, na televisão argentina, Maradona sublinhou que, sob o seu comando, Barcelona, Nápoles e a selecção conseguiram 55 remontadas. Não sei se este número é verdadeiro. Mas, tratando-se de magia, tudo pode acontecer.

 



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O Senhor Futebol

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                                                                                                          Por João Nuno Coelho

Se há alguma coisa que define Johan Cruyff foi a forma como assumiu publicamente que preferia que a selecção espanhola fosse campeã do Mundo em 2010, do que a selecção do seu país, a Holanda.

Para o “eterno 14”, a sua nacionalidade conta pouco quando comparada com o seu amor ao futebol, à sua ideia/filosofia de futebol. Ironicamente, a ideia/filosofia que tornou a selecção holandesa uma lenda do futebol mundial mas que foi entretanto renegada por uma Laranja pouco Mecânica mas muito aborrecida; pelo contrário, a ideologia futebolística de Cruyff esteve na base do estilo de jogo de La Roja nesse Mundial.

Uma ideologia que Cruyff ajudou a construir no Ajax do final dos anos 60, juntamente com o treinador Rinus Michels, a partir da influência da Escola do Danúbio – da Wunderteam austríaca ou dos Mighty Magiars húngaros. E que depois aplicou no Dream Team do Barcelona, no início dos anos 90, finalmente campeão europeu. A mesma ideia de jogo que tornou o Barça de Guardiola a (provavelmente) melhor equipa de futebol de todos os tempos.

Sendo considerado um dos melhores jogadores de todos os tempos, Cruyff não tem rival entre os grandes craques no que diz respeito à influência na evolução do próprio futebol, em termos de arquitectura de jogo, organização colectiva, concepções tácticas. Pode não ter sido o melhor jogador de sempre, mas arrisco-me a dizer que, tendo em conta os diversos papéis e vertentes do jogo, é a mais influente figura da história do futebol.

Cruyff nasceu e cresceu praticamente no estádio do Ajax de Amsterdão. A sua mãe era empregada de limpeza do clube e o jovem Johan passou aí por todas as fases de crescimento como jogador até se tornar o verdadeiro maestro da revolução operada pelo Futebol Total. Cruyff era a continuação do treinador Michels dentro do campo. Só ele, a quem chamaram o “Pitágoras de Botas”, compreendia na totalidade a base e as ramificações do sistema e como tal tornou-se a sua personificação em campo. E o seu principal líder e filósofo, também fora das quatro linhas.

Não surpreende que Cruyff, enquanto treinador, se tenha mantido fiel e até aprofundado ainda mais as ideias de futebol que dominaram toda a sua vida: a importância do espaço e do seu aproveitamento total, da posse e da circulação de bola, da polivalência “criativa” dos jogadores. E quem mais beneficiou com isso foi o Barcelona (onde também jogou, a partir de 1974, depois de se sagrar tricampeão europeu com o Ajax), o grande clube-símbolo da sua terra de adopção, a Catalunha.

Graças a ele, os blaugrana tornaram-se a equipa mais importante dos últimos 25 anos do futebol mundial, devido a dois latos períodos aúreos, um dos quais ainda dura. O primeiro, entre 1989 e 1994, com o próprio Cruyff como treinador, que valeu por exemplo uma Taça dos Campeões, uma Taça das Taças e quatro ligas espanholas. E o segundo – no qual teve grande influência, ainda que indirecta -, iniciado em 2008 com Guardiola, pupilo e seguidor assumido do holandês. Nesta fase do “tiki-taka”, que ainda vigora, o clube catalão conquistou já, entre muitos outros títulos, 3 Ligas dos Campeões e 5 ligas espanholas, completando um duplo-triplete (2009 e 2015) que mais nenhuma equipa europeia possui, sendo que em 2009 ganhou mesmo 6 títulos, um feito inédito na história do futebol.

O homem que disse um dia: “o futebol é um jogo simples, mas é difícil jogá-lo de forma simples”, enfrenta agora um jogo muito complicado, provavelmente o mais complicado da sua vida. Todos os adeptos do futebol desejam ardentemente que o Senhor Futebol possa mais uma vez sair vitorioso.

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Há futebol na poesia de Luís Maffei

          por João Tiago Lima

 

maffei

Luís Maffei: «Não me lembro de não ser do Vasco!»

Hoje, mesmo sem ser necessário, peço licença para falar do escritor Luís Maffei*. Ou melhor: do futebol da sua poesia. Por exemplo, de 38 Círculos livro que, a começar pelo título, surpreende o leitor como remate desferido lá bem do meio da rua. Os quase quarenta poemas são, através de uma aritmética coincidência, as rodadas do dantesco e primeiro rebaixamento do Vasco da Gama do Rio de Janeiro à segunda divisão do campeonato brasileiro. De facto, Maffei intitula cada um dos poemas do seu segundo livro com a data e o resultado de todos jogos que o Gigante da Colina disputou entre Maio e Novembro de 2009 naquela inesperada e meteórica travessia de um deserto que se chama série B do futebol brasileiro. Diga-se que nem todos os círculos  sinalizam, pelo menos de modo explícito, a presença do beautiful game nesse meio ano futebolisticamente infernal da vida do poeta. Noutras ocasiões, o vínculo é mais subtil, como quando a mediação com o jogo é sublinhada por via radiofónica.

(…) Erro é

o tipo gritar pela emissora e esquecer que

tenho ouvidos

Ou ainda:

(…) O velho tinha um rádio de pilha , de muitos torcedores hábito antigo que eu mantenho na forma de um ipod que não me prende o braço. Mas o velho portava um radinho ao ouvido e, após o jogo, manteve-se sentado na arquibancada a meu lado sem que para ele eu representasse sequer uma sombra. Éramos iguais misturados a 5.895 presentes numa noite assombrosa de terça-feira (…).

A telefonia é, sem dúvida, uma das grandes paixões de Luís («Adoro fazer comentários aos jogos!»), mas não foi desta vez que ouvimos a voz do locutor de Istambul. Falamos de futebol pensando em surdina na beleza do olhar de certas mulheres. Outras paixões do escritor? O grande Vasco, claro. «Não me lembro de não ser Vasco!» Mas é sempre possível ser Vasco fugindo àquele hábito vascainamente tuga de sonhar acordado com miríficas conspirações. Ou ainda aplaudir o bandeirinha pela beleza com que recorta o impedimento. Há futebol na poesia de Maffei. Há poesia no futebol de Luís, mesmo que, por uma vez, excesso de cálculo tenha terminado em autogolo. Fechamos por agora aqueles trinta e oito círculos e entremos num título que podia ser estádio da Bundesliga: Telefunken . E eis que o indomável Gennaro (quantos guinazus não valeria hoje o trinco italiano?) entra teutonicamente a pé juntos:

Gattuso

se eu quero

versos com barba

ou

mundo possível, silêncio raro a dormir

bijuterias

 

[Diálogo sonhado por mim entre parêntesis: «Gennaro, um jogador como você, personagem de poema?» «Ainda se fosse o Roberto Dinamite!». ] Volta, Roberto! Para que este ano quarenta e um não seja um novo fim do mundo. Para que chova sem parar e possamos regressar todos àquele

Maracanã

cinza cinza cinza

 

Então, abraçaremos o tempo todo como em 40

 

quando Roberto dominou a bola n’água bateu no

canto do Raul e adiou a série final daquele

Campeonato Carioca

 

 

Lanço-me a correr doido atrás de um Cafu em match da selecção canarinha envergando equipamento alternativo. O devaneio parece tornar-se mais nítido. Apanho o lateral direito e atrelo-me à camisola (camiseta dirá o poeta). Nada feito. Acordo no meio do frio do chão. O liner esqueceu a bandeirinha e o Brasil inteiro devora festivo aquele gol. Sorrio e guardo para sempre aquele tesouro de azul Diana.

 

  • Luís Maffei é escritor e professor de Literatura Portuguesa. De poesia publicou: A (2006), Telefunken (2008), 38 círculos (2010, 2ª edição 2012), Pulsatilla (2011), signos de Camões (2013) e 40 (2014). O segundo, o quinto e o sexto livros têm também edição portuguesa. Hoje, sábado dia 24, às 18h30m, na Livraria Ler Devagar em Lisboa, haverá uma apresentação de 40 (Guilhotina, 2015) com a presença do Autor. Falará sobre o livro Helena Buescu.  As citações desta desajeitada crónica foram retiradas de 38 círculos (a primeira e a segunda), Telefunken (as duas seguintes) e 40 (a última, em que evoca um famoso golo em cima da hora de Roberto Dinamite, artilheiro histórico do Vasco da Gama, num diluviano derby carioca e a que se reporta também o video acima reproduzido).

 

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O Teatro e o Futebol

por Alcino Pedrosa

“Uma sociedade precisa de heróis, porque ela tem necessidade de uma constelação de imagens suficientemente poderosa para reunir, sob uma mesma intenção, todas essas tendências individualistas.”
(Campbell & Moyers, O poder do mito)

 

 Noventa minutos repartidos por dois tempos de quarenta e cinco cada. O palco tem a forma de um rectângulo, figura geométrica que dialoga e contrasta com a perfeição da esfera, rainha do jogo: a bola. Os intervenientes são diversos, uma vez que, para além dos vinte e dois jogadores escalados para o jogo, milhares de espectadores, nas bancadas (e milhões, por todo o mundo), fornecem a envolvente do espectáculo.

O futebol é um mundo à parte, que reproduz em pequena escala a sociedade. Com uma diferença, nada despicienda: enquanto representação social é acrescido de doses muito mais concentradas de emoções, sentimentos e possibilidades mais interessantes que as da lógica da vida quotidiana. Não será certamente por acaso que Bernard Jeu escreve:

O desporto, antes de tudo, tem um sentido trágico, há a contradição inevitável dos desejos dos oponentes, que resulta no aparecimento da violência ritual. No entanto, trata-se de uma violência que obedece a regras preestabelecidas e, portanto, não se trata mais da mesma violência no sentido estrito do termo. A morte é simbólica, uma vez que o derrotado não morreu e a sua vida será restituída em face de uma competição futura” (Le sport, l’émotion, l’espace).

teatro

‘Comédia Futebol Clube’, representada pelo Teatro Colinas (2013)

Ao entender o futebol enquanto espécie de acontecimento trágico, capaz de despertar no espectador um sentimento misto de terror e piedade, Bernard Jeu parece retomar uma ideia ancestral do filósofo grego Aristóteles, apresentada no capítulo VI do clássico compêndio Arte Poética:   A tragédia é a imitação de uma acção importante e completa, de certa extensão; num estilo tornado agradável pelo emprego separado de cada uma de suas (…) partes; acção apresentada, não com a ajuda de uma narrativa, mas por atores, e que, suscitando a compaixão e o terror, tem por efeito obter a purgação dessas emoções.

Jogadores e treinadores são os actores desta narrativa, que reflecte representações sociais e que tem o seu clímax num espaço ritual (o estádio), constituído por dois territórios: o território das quatro linhas, onde ocorre o jogo propriamente dito, e a área técnica, que vai do banco de reservas até as linhas de onde o treinador dirige a equipa.

chelsea

Recordação de uma viagem do autor a Londres: oferta de José Mourinho

José Mourinho disse um dia, que se sentia uma espécie de encenador, que define as linhas de representação, deixando aos actores (entenda-se jogadores) a arte de contar a história, que, a maior parte das vezes acaba bem, e outras, mal, mas nunca em tragédia (entrevista ao Daily Express, 2005). O que o não torna imune ao conhecimento, ou melhor, reconhecimento do pathos, determinado pelo destino e executado pelas parcas. No final do jogo no Estádio do Dragão, onde nunca ganhou desde que saiu do F.C.Porto), haveria de reconhecer: Parece ser o destino, não ganhar aqui! Mas não vamos desistir, nem acabar, fazendo recordar o verso dito por Electra, após descrever o estado de Orestes: Uma esperança temos de não morrer.

O estádio é sempre o palco de uma representação, com a multidão assumindo o coro e o treinador o papel de director de cena. É ele que prepara o grupo que vai actuar, sem, todavia, entrar em cena, define as estratégias de ordenação da apresentação. Se no caso do director de teatro existe um controle maior na criação, dado que dirige o ensaio, sendo, por isso, possível para ele ver o produto pronto, organizado, o técnico de futebol monta o esquema táctico que irá ser concretizado em palco na presença dos outros dois intervenientes, que compõem o espectáculo futebolístico: a equipa adversária, com quem dialoga, e o quarteto de árbitros, que dita as marcações de cena. O resto cabe ao jogador, a quem cabe o papel de interpretação. A deixa e o passe necessitam de ser bem executados para que o espectáculo teatral ou o desempenho de uma equipa sejam um sucesso. A deixa, tanto pode ser dada pela última palavra da fala, como através de uma reticência, de uma vírgula, de um olhar, de um gesto, de uma expressão facial ou corporal. Como um golo pode ser marcado sem um passe ou lançamento directo para o marcador, nascendo de mau corte ou de uma simulação que ludibria a marcação adversária.

Cada jogo de futebol e cada representação teatral têm suas particularidades, que são únicas, irrepetíveis, embora o texto e as regras do jogo e até os actores / jogadores sejam ou possam ser os mesmos. O imponderável, o aspecto humano, a plateia, até o clima pode mudar tudo. Por isso, teatro e futebol são tão fascinantes e apaixonantes. Pena que em muitos casos se tenham afastado tanto da arte para se entregarem ao pragmatismo comercial dos resultados. Mesmo assim, ainda creio que ambos tenham muito a aprender um com o outro.

 


 

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Nacional Dona Maria, 2 Estrela da Amadora, 2

por João Tiago Lima


 

Irrita-me um bocado a tendência de alguns discursos sobre o futebol (ou sobre o desporto em geral) que consideram o supra-sumo da originalidade de estilo fazer analogias de certos lances de um jogo com manifestações artísticas. Dizer que um golo é um poema ou que uma defesa de guarda-redes é uma escultura afigura-se-me quase sempre confrangedor. Abro uma excepção para a metáfora de uma equipa jogar como uma orquestra – desde logo, porque sempre me fascinou a enigmática e já clássica figura do carregador de piano.

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Paula Rego e Jorge Jesus ou pintura x futebol

Claro que ouvir Jorge Jesus a falar sobre Paula Rego é muito divertido. Aliás, as palestras do actual treinador do Sporting são sempre cómicas e, talvez por isso (porque nelas não existe o efeito surpresa que caracteriza a comicidade), cada vez têm menos piada. Mas não é exactamente sobre JJ que queria falar.

Por outro lado, julgo que Luís Freitas-Lobo é um dos melhores comentadores de futebol dos nossos dias. No entanto, nem sempre consegue suster a sua irreprimível vontade de fazer analogias com expressões evocativas de obra de arte. Dizer que certos momentos de um jogo «são pinturas, são picassos» é engraçado, mas denota sobretudo uma tremenda preguiça metafórica. E Freitas-Lobo, por vezes, torna-se numa espécie de “Pedro Barbosa do comentarismo futebolístico”.

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Luis Freitas-Lobo: um “Pedro Barbosa do comentarismo futebolístico”?

Como se vê, também eu me perco em dribles junto da minha baliza e caio no facilitismo comparativo. Mas referir aqui o Pedro Barbosa tem uma outra intenção. É que há antigos futebolistas que, pela argúcia das suas análises, nos ajudam no que creio ser o essencial desta actividade: ver o que não é óbvio. Para além do devorador matinal de croissants (Quinito dixit – por falar nele, por onde anda este treinador?), merece sublinhado o antigo defesa esquerdo Pedro Henriques, sem dúvida melhor como comentador do que alguma vez foi jogador. Mas voltemos às analogias irritantes. E sobretudo às razões pelas quais me irritam elas.

Por exemplo, pensar – e sobretudo dizer – que um golo é um poema parte de um pressuposto que me recuso a aceitar. É que, para mim, um jogo de futebol não tem de ser visto como esteticamente inferior a qualquer uma das formas de expressão artística. Sugerir que uma finta de Messi é um quadro consiste, antes de mais, em mostrar uma espécie de complexo de inferioridade do desporto em relação à arte. Ora, a comparação é não só injusta como desajustada. Desde logo, porque se tratam de duas actividades radicalmente diferentes.

De facto, há alguns anos, defendi a ideia de que a experiência de assistir a um jogo de futebol tem características essencialmente distintas das da experiência da recepção artística. A quem quiser saber mais sobre o assunto, aconselho, sem qualquer falsa modéstia, a leitura do que escrevi sobre “a percepção competitiva”. Aí admitia uma ideia óbvia: é preferível efectuar comparações entre os desportos colectivos e as chamadas artes performativas (teatro, dança, ópera, música). E, de facto, esta comparação faz mais sentido do que associar futebol à literatura ou às artes plásticas. Mas comparar não é – longe, muito longe disso – identificar.

Suponhamos o caso em que assistimos a um jogo de futebol (ou de rugby, porque, nos dias que passam, esta experiência me parece bem mais interessante) em que o resultado sofre inesperadas e emocionantes reviravoltas. É tentador associar esse espectáculo a um drama? Claro que sim. No entanto, numa representação teatral, o suspense e o dramatismo é vivido apenas pelo espectador que não conhece o desenlace do enredo. O papel do actor é representar, ou seja, fingir que entre ele e o personagem há uma perfeita identificação. Por exemplo, o marido não sabe que é enganado pela mulher, mas o actor sabe que, entres os dois personagens, há uma relação de infidelidade. O público não sabe o que irá acontecer, mas todos os que estão no palco não só conhecem o desfecho da peça, como já o ensaiaram inúmeras vezes.

Ora, na célebre final da Champions League entre o Bayern de Munique e Manchester United, por exemplo, nem os alemães nem os britânicos estavam em condições de antecipar o que iria suceder nos últimos momentos do jogo. E isto aplica-se quer aos espectadores que torciam pelos dois clubes – e esse é o elemento comum ao teatro e ao futebol –, quer aos próprios jogadores e treinadores que jogavam o seu destino no relvado – e esse é o elemento específico do drama da competição desportiva. Em suma: actores e personagens cumprem, dentro das quatro linhas, o sonho de qualquer dramaturgo ou encenador: a absoluta osmose entre realidade e ficção. Não por acaso esses mesmos alemães e ingleses usam o mesmo conceito para se referirem a actores/músicos e jogadores: player ou spieler.

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Bayern Munique x Manchester United em 1999: uma final shakesperiana?

Com isto quero dizer que no futebol há maior intensidade dramática do que no teatro? Evidentemente que não. Mas a verdade é que as experiências que ambas as actividades proporcionam são intensamente definidoras da nossa humanidade. No que têm de parecido e, sobretudo, no que encerram de singular. Por isso, e enquanto um crítico teatral não identificar a performance de um actor do Teatro Nacional como desempenho de, por exemplo, um Zlatan Ibraimovic, proponho que nos abstenhamos das analogias excessivamente forçadas entre o futebol e a arte.

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Zlatan Ibrahimovic: acima de tudo, um enorme jogador de futebol

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O Futebol é coisa séria

por Alcino Pedrosa


Algumas pessoas acreditam que futebol é questão de vida ou morte. Fico muito decepcionado com essa atitude. Posso assegurar que futebol é muito, muito mais importante. Bill Shankly

 

Alienante, fantástico, apaixonante, mágico, místico, dramático, moderno, globalizado, o futebol é interpretado de várias formas. É hoje uma referência incontornável da sociedade moderna, capaz de colocar centenas de milhares de adeptos a gritar por onze jogadores. Tal fenómeno não seria possível se a ligação ao desporto e ao clube não fossem fortíssimos. Existe, de resto, um estado de comunhão, entre os adeptos e o clube ou a selecção, que configura uma identidade. Não é por acaso que ficou famosa a frase O Porto é uma Nação, ou que, frequentemente, nos vídeos promocionais dos clubes ou selecções os jogadores são identificados como guerreiros, corajosos representantes de um clube, de uma história, de uma região ou cidade.

O seu poder de influência é cada vez maior, carregando consigo um traço único – a absorção em larga escala. As paixões que suscita, conectadas com a tensão emocional constante durante o jogo, a linguagem universal utilizada e o facto de ser objecto privilegiado dos meios de comunicação de massa tornam-no capaz de unir pessoas de diferentes raças, religiões ou ideologias. Se existirem 22 homens de 22 países, que falam diferentes línguas, pertencendo a raças diferentes e professando religiões diversas e lhes derem uma bola e um árbitro, têm muitas possibilidades de se entenderem, jogar, e divertirem-se (M. Halbwachs, A memória colectiva).

Regresso ao título deste texto – O futebol é coisa séria – inspirado numa questão que Eduardo Galeano colocou numa entrevista à BBC, em 2008: É o futebol uma coisa séria? A resposta não deixou lugar a qualquer dúvida: Claro que é, porque está imbricado na sociedade, porque mobiliza pessoas. De outra forma, como se pode entender que haja governos que apropriem dele, tornando-o um verdadeiro circo de distracção social? [julgo que esta frase de Galeano será uma pergunta] E deu o exemplo da selecção chilena, obrigada, em 12 de Novembro de 1973, a entrar em campo no estádio Nacional, o maior palco de repressão do país, para enfrentar um adversário “fantasma”, a União Soviética que se recusara a disputar a partida em sinal de protesto. O estádio nacional de Santiago, símbolo do futebol, mas também da barbárie, mantém até hoje vestígios da época em que funcionava como campo de detenção e tortura – para não deixar que a memória de algo tão cruel, mas ao mesmo tempo tão importante, se esgote com o tempo.

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Eis o escriba, com apenas sete anos, a defender um remate de José Maria Pedroto, Mestre do futebol e da vida, em pleno Estádio das Antas.

Através da sua função mobilizadora, o futebol constitui um meio de integração social, um espelho da realidade sócio-politica no seio da qual opera. Este aspecto não é necessariamente negativo. O futebol, indubitavelmente, ajuda-nos a compreender as estruturas e o contexto em que vivemos. E pode mesmo desempenhar uma função de carácter utópico. Se a ideologia preserva a realidade – escreve P. Ricoeur – a utopia põe-na essencialmente em questão (Tempo e Narrativa) Sob este viés, o futebol pode ser visto como um certo desvio do real pela construção imaginária dum mundo ideal, na medida em que se assume como expressão de um desejo profundo do homem de qualquer coisa que o ultrapassa. Ou não fosse o estádio uma espécie de arquivo de memórias, onde se enraíza uma esperança, um lugar quase escatológico, em que se aspira a uma vivência mais fraterna e feliz.

Sinto-me feliz com uma bola nos pés, mais feliz que numa recepção oficial, por isso prefiro um jogo de rua a muitas partidas de campeonato, disse um dia Cantona. O futebol, por muito que esteja invadido pelo espírito de negócio, não perdeu ainda este carácter espontâneo e popular, a que se referia o futebolista francês. A sua prática consuma-se nos mais inusitados lugares, espaços e baldios. É comum vermos meninos jogando nas ruas e talvez seja este o segredo para a sua popularidade. Recordo a minha infância, quando, no pátio da escola ou na rua, nos defrontávamos em jogos escaldantes. Escolhia sempre a equipa da casa, proprietária da bola. Afinal, naquela época, futebol e família eram instituições sagradas no nosso país. Os que não gostavam apareciam sempre com cromos das várias colecções existentes. A farsa acabava, quando eram questionados sobre os resultados dos jogos do último domingo. Explicavam-se, confessando que não acompanhavam muito. Argumentação aceite, em nome da boa vizinhança, mas ficava sempre no ar aquele desconforto, como se o deserdado sem equipa tivesse vindo de outro planeta.

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Com a devida vénia, Leitura de Jogo reproduz um genial cartoon de Luís Afonso publicado há largos anos em “O Jogo”.

Gosto de futebol e encaro-o de uma forma muita séria e com prazer. Como eu, existem muitos. Uma perplexidade, no entanto, me atinge. Não admitimos ver o nosso clube espoliado por um árbitro, mas somos complacentes com central de negócios em que se tornou a vida politica portuguesa e todas as relações de promiscuidade, que lhe estão subjacentes. Talvez Ernesto Sabato tivesse razão: O argentino leva a sua paixão pelo futebol tão a sério, que esgota rapidamente a sua crença na seriedade (Tango, discussão e chave).

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Simplesmente André

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Tal como há pouco mais de trinta anos, Lopetegui, como Artur Jorge, demorou uns jogos até dar a titularidade a André na equipa do Porto. Mas quando já todos os adeptos na altura, como agora, tinham visto o óbvio, lá lhe foi feita a sua vontade. E com os resultados conhecidos, então com o pai André, e aposto que agora também com o filho André.

Já começava  a ser claro como a água que no actual meio-campo do Porto, André era o único capaz de receber a bola de costas sem a perder constantemente ou sem ficar tolhido de movimentos e de ideias. Imbula, Herrera, Danilo, etc, não o sabem fazer. Brahimi, sim, mas é um avançado e pensa como avançado (que defender é para os outros), desequilibrando a equipa quando joga a 10. Evandro, também consegue fazer o papel, mas falta-lhe a dinâmica de André. Aquele jeito de formiga incansável, que não sendo um fantasista, um desequilibrador nato, leva a sua avante, porque tem muita qualidade de passe, é atrevido, sabe o que fazer à bola, desmarcar-se e receber mais à frente, sempre com rapidez de pensamento e execução. E acima de tudo, porque é muito inteligente.

Aos adeptos do Porto resta rezar para que Lopetegui não o inclua agora num qualquer sistema de rotatividade, e que faça o óbvio: lhe dê a batuta da equipa e não invente. É impossível ter um modelo de construção de jogo apenas com médios transportadores de bola e extremos. Para criar jogo em zonas interiores é preciso jogadores como André, que não tenham medo de ter a bola no pé, que procurem as linhas entre os sectores adversários, que descubram os colegas melhor posicionados para receber a bola, que saibam “accioná-los” e produzir futebol ofensivo. E que depois ainda estejam disponíveis para lutar pela recuperação de bola, quando ela é perdida para a outra equipa.

PS: Talvez para os adeptos do Porto com menos de quarenta anos seja difícil perceber o que significa para os adeptos mais velhos ver o filho André começar a percorrer o caminho do seu pai. Os primeiros talvez acreditem no que parece ter-se tornado uma verdade inquestionável: que o pai André era um mero trinco trabalhador. Os segundos sabem que era muito, mas muito mais do que isso.

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